As consequências reais da morte dos principais articuladores do presidente Fernando Henrique Cardoso serão sentidas nesta semana, quando o Executivo tentará concluir o primeiro turno das votações da reforma da Previdência pela Câmara dos Deputados. O clima é da maior incerteza. O presidente tentou sensibilizar o Congresso, sugerindo que a melhor homenagem aos políticos mortos seria a aprovação das reformas. A iniciativa do presidente foi mal colocada. Sofreu contestações de líderes da oposição, até com certa justificativa. A questão precisa ir além dos apelos sentimentalistas. As reformas estruturais vão além das homenagens. Trata-se de todo um projeto político que se fundamenta em algo mais profundo: o interesse nacional. Pois já ficou muito evidente, desde o início do plano de estabilização da economia, que as reformas são imprescindíveis.
Todos sabem das dificuldades enfrentadas pelo Executivo para implementá-las. Não há como desconhecer o trabalho do ministro Sérgio Motta, na linha de frente de alguns dos processos mais complexos - como as privatizações - e do deputado Luís Eduardo Magalhães na obtenção de apoio legislativo para fazer aprovar as reformas. Mas é fora de dúvida que neste momento o Executivo precisa fazer valer sua condição, superando o obstáculo produzido pela falta daqueles auxiliares. Sem isso, perderá o rumo e a possibilidade de sedimentar o processo econômico.
As dúvidas sobre o que pode acontecer agora são pertinentes. O presidente Fernando Henrique Cardoso, ao suspender a visita oficial à Espanha, voltando rapidamente ao Brasil, já sabia que sua presença é vital. Não há tempo ou condições para conseguir alguém que substitua Luís Eduardo Magalhães nas articulações políticas. Cabe a Fernando Henrique realizar esse trabalho agora. Para o Executivo, conseguir fazer passar a reforma da Previdência é mais do que apenas ver o processo avançar. Representa um sinal necessário de que o governo federal não perdeu o controle da situação e persistirá no rumo adotado.
As preocupações ultrapassam até a esfera política. Os meios financeiros também estão atentos. O temor é que a dupla perda enfraqueça politicamente o governo para o cumprimento da agenda de votação das reformas econômicas e de reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso. Sabe-se que o presidente assumirá a iniciativa para a aprovação das reformas no Congresso. A dúvida é se ele será bem-sucedido no papel. O resultado das discussões sobre a proposta de reforma da Previdência - que será retomada quarta-feira - é considerado indicador da continuidade ou não do processo de mudanças. A reforma previdenciária vale mais pela sua atuação sobre as expectativas do que pelos ganhos nas finanças públicas. A economia a ser obtida ao longo deste ano, com a aprovação do projeto, é mínima. Sem ela, no entanto, haveria um mal-estar que exigiria maior cautela na condução da política monetária, apesar da explosão do desemprego e da inadimplência.
Política e economia estão intimamente ligadas. Um eventual fracasso do presidente em manter o calendário das reformas ameaçaria até mesmo seu projeto político. O desafio é imenso. Esta é a hora de o presidente mostrar sua força e, ao mesmo tempo, cobrar de sua base política o apoio necessário. Não são necessários apelos emocionais, mas a simples cobrança de uma fidelidade política que, infelizmente, tem faltado ao longo de todo este processo.

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