A semana em que o País comemora a Independência não comporta apenas discursos cívicos que lembrem aos brasileiros a glória do Grito do Ipiranga. O brado de d. Pedro não é senão o símbolo de nossa independência - que afinal ocorreria com ou sem o gesto do imperador. O que todos nós deveríamos fazer hoje é passar em revista os conceitos em que se funda nosso patriotismo e verificar, com isenção, se os ensinamentos em que de boa-fé acreditamos, correspondem, verdadeiramente, aos fatos históricos reais.
Existe, por parte de certos autores, uma espécie de preocupação em mostrar o Brasil com um país cordato, sem alma... Aqui, pelo que se ensina, nada aconteceu de mais sério ou grave, desde a colonização até a Independência.
Segundo esses mesmos autores, tudo foi sempre calmo, sereno e sem maiores problemas. O que se pode deduzir desses ensinamentos é que os brasileiros sempre viveram numa ilha de paz e tranquilidade. Nossa independência foi tranquila, bastou um ato; a abolição da escravatura, a República, tudo foi acontecendo quase que sem maiores dificuldades - é o que se depreende das lições decoradas na escola.
Talvez tudo isso não seja intencional, mas o certo é que o vazio deixado por tal tipo de informação acaba por contagiar a todos, dando a impressão de que aqui não é preciso fazer nada, pois as coisas simplesmente acontecem. No momento da Independência, surge um príncipe; na hora de abolir a escravidão, vem uma princesa; e, quando chega o momento de se fazer a República, aparece um marechal. Até parece um conto de fadas.
E, com essa colocação fácil e enganosa, perdem-se importantes lições de brasileiros lutando, sofrendo, oferecendo mesmo suas vidas em defesa de seus ideais. E um exemplo disso, é o extenso e espinhoso caminho percorrido para se chegar à nossa Independência.
Voltemos ao passado, ressuscitemos os séculos!
Em certa manhã de 1820, uma turba furiosa desce o Morro do Ouro Podre, em Vila Rica, dirigindo-se à casa do governador, proferindo palavrões. O homem chamava-se Pedro de Almeida Portugal, e o céu devia estar alto e azul, como é de costume nas regiões mais altas de Minas Gerais. A revolta era chefiada por um emboaba de cabelo nas ventas, e explodiu oito dias após a instalação da Casa de Fundição. Não foi necessário a polícia dissolver a furiosa manifestação, pois ela não seguia plano algum nem se alastrou. O governador quis saber quem eram os cabeças, mas só lhe apresentaram o emboada.
Nesta hora, inicia-se a construção de nosso destino de país livre. Surge o primeiro mártir: Felipe dos Santos, enforcado e esquartejado em praça pública, tendo seus braços e pernas amarrados em quatro cavalos que partiram em direções opostas, por ter dado o primeiro grito de liberdade.
1789 - Glória aos mártires da Conjuração Mineira. Cláudio Manoel da Costa, advogado, poeta, é morto na prisão de Vila Rica. Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes, o grande mártir da nossa Independência, é enforcado, esquartejado e seu corpo distribuído pelos locais onde pregara a liberdade. A cabeça foi exposta em Vila Rica. Sua casa foi salgada, para que findasse ali sua doença, e que esta não contaminasse mais ninguém com o vírus da liberdade. Seus bens foram confiscados, seus descendentes considerados infames.
O castigo exemplar aplicado a Tiradentes era a mostra da fraqueza que tomava corpo no Império Colonial Português. A primeira tentativa de libertar o País falhara. Tiradentes abriu as portas da nacionalidade e atravessou-as, altivo, firme, convicto de que seu gesto não seria em vão. Essa firmeza vinha lá de dentro, da consciência de que alguma coisa estava mudando. No entanto, seriam necessários, ainda, mais sacrifícios, lutas e mortes.
1798 - Glória aos mártires da Conjuração Baiana. Luís Gonzaga das Virgens, soldado, 30 anos; Lucas Dantas, soldado, 24 anos; João de Deus do Nascimento, alfaiate, 8 filhos; Manuel Faustino dos Santos Lira, aprendiz de alfaiate, 17 anos: todos enforcados, esquartejados e seus corpos abandonados aos urubus.
Mais uma vez a repressão portuguesa havia vencido. Mais uma vez fora adiada a Independência do Brasil. Mais uma vez homens entregaram suas vidas na esperança de mudarem alguma coisa. Restou apenas a propagação de suas idéias e seus nomes foram para a galeria dos heróis do Brasil.
1817 - Glória aos mártires do Nordeste. Padre José Inácio de Abreu e Lima, preso e fuzilado. Domingos José Martins, José Luís de Mendonça e padre Miguelinho, fuzilados em Salvador. Domingos Teotônio Jorge, José de Barros Lima, padre De Souza Tenório, Antônio Hemopos, todos enforcados em Recife.
A repressão bateu todos os recordes: 350 mortos em combates, 4 fuzilados na Bahia, 9 enforcados em Pernambuco, 26 falecidos na prisão, 403 proscritos ou presos, 800 degregados para Montevidéu, 2 ‘‘suicidados’’ pela polícia. As sobreditas penas se executam nos réus, os quais todos, depois de mortos, terão cortadas as mãos, que se pregarão nos quartéis, e terão decepadas as cabeças, que se pregarão em postes das principais cidades, e os restos de seus cadáveres serão ligados a caudas de cavalos e arrastados até o cemitério. O banho de sangue teria sido maior não tivesse d. João, sob pressão humanitária, concedido duas anistias parciais.
Esta foi a última rebelião colonial. Comparando-a com as duas anteriores, as conjurações mineira e baiana, vê-se o longo caminho andado. Em 1817, os rebeldes, apoiados em muito mais gente, conservaram o poder por quase dois meses, ligaram-se a rebeldes de outras províncias e constituíram um exército de libertação, embora débil. Se tivessem vencido, teríamos uma independência democrática e liberal. A história, porém, é o reino do que aconteceu e não do que podia ter acontecido.
1822 - O País caminhava para a separação final. A imposição da independência necessitava apenas de um ato público. Este competia a d. Pedro. Enquanto o regente estava em São Paulo, a Maçonaria decidiu pela separação do Brasil de Portugal. A chegada do navio-correio trazendo notícias restritivas à autonomia do Brasil precipitou os acontecimentos. José Bonifácio enviou um mensageiro que foi encontrar d. Pedro no Ipiranga, quando voltava de Santos. Os relatórios dos irmãos Andrada, de Lisboa e do Rio, e a carta de dona Leopoldina convenceram-no a imediatamente proclamar a Independência. Era o dia 7 de setembro.
Mas o quadro de lutas e sacrifícios não havia terminado. Diversas províncias, onde guarnições militares e moradores decidiram permanecer leais à Corte e à Constituição portuguesas, tiveram que ser submetidos à força. Era a guerra.
Nenhuma guerra de independência, em toda a América, mesmo a norte-americana, mobilizou tantos homens quanto a guerra da Independência do Brasil. Basta lembrar os números para desmentir o mito da independência sem sangue, de uma separação romântica entre pai e filho, de um desquite amigável, que a historiografia oficial sustenta para agradar, em princípio, à família real, e depois às minorias dominantes, que escurecem a história para proveito próprio.
Na Bahia, segundo os cálculos mais contidos, lutaram 13 mil homens, sendo 2 mil de forças auxiliares, e que venceram o general Madeira; no Rio de Janeiro, para expulsar as forças de Ávilez, reuniram-se entre 8 mil e 10 mil homens, cariocas na maior parte, mas também paulistas e mineiros, no Campo de Santana; no Maranhão, pernambucanos e cearenses formaram um corpo de 10 mil homens, que derrotaram Fidié.
Se Bolívar, em 1824, chegou a comandar 9 mil homens, entre colombianos e peruanos, e San Martin, em 1817, contou com 8 mil homens; se o máximo de força do exército de Washington, no verão de 1776, foi de 18 mil homens, as forças brasileiras em luta, na Bahia e no Maranhão, ou mobilizadas no Rio de Janeiro, ultrapassam qualquer destas cifras. A Independência não foi, portanto, uma vitória incruenta. A Independência é o fruto de uma guerra, não é dádiva de Portugal, nem um presente da Casa de Bragança.
Em síntese, desde o primeiro grito de Felipe dos Santos, em 1720, até a assinatura do tratado pelo qual Portugal reconhecia a independência do Brasil, em agosto de 1825, passaram-se mais de 100 anos de lutas, sacrifícios e mortes.
Por esse exemplo, vemos como é ilusória a postura dos que querem dizer que o Brasil é um país sem alma, cuja história foi construída através de atitudes individuais. Se assim o fosse, nada teríamos conseguido. É preciso ensinar aos jovens brasileiros que a Pátria é, sobretudo, um fenômeno de consciência coletiva a brotar de um pacto de solidariedade, de uma harmonia de interesses, de uma convergência de aspirações.
Fez-se a Independência, abriu-se a Assembléia Constituinte, fez-se uma guerra, negociou-se o reconhecimento. A frase que d. João disse ao filho é, neste sentido, extremamente significativa: ‘‘Eu ainda me lembro e lembrarei sempre do que V. M. me disse, dois dias antes de partir, no seu quarto: ‘Pedro, se o Brasil se separar, antes seja para ti, que me hás de respeitar, do que para algum desses aventureiros’. Foi chegado o momento da quase separação, e, estribado eu nas eloquentes e singelas palavras expressadas por V. M., tenho marchado adiante do Brasil, que tanto tem me honrado. Não sou um rebelde, como hão de dizer a V. M. os inimigos de V. M.; são as circunstâncias.’’

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