Sem terrorismo nem submissão
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sábado, 15 de setembro de 2001
Rubens Bueno 
Terrorismo é crime hediondo contra toda a humanidade e, por isso mesmo, não pode encon trar respaldo num mundo que queremos demo crático e fraterno. O PPS condenou severamente a barbárie cometida contra o povo norte-americano na última terça-feira. Entendemos que, doravante, as nações do mundo terão que encontrar uma nova ordem planetária, para que ocorrências como aquela não tenham provocações nem impulso, incitamento ou aplauso.
Os meios de comunicação, alimentados por informações de autoridades americanas, começam a apontar responsáveis e patrocinadores dos atos terroristas. A maior parte das acusações recai sobre os fundamentalistas islâmicos, cujos ataques são quase sempre suicidas. Crêem aqueles fanáticos que morrendo pelo Islã alcançarão o paraíso.
Não acredito que se possa deslindar assim tão precipitadamente o atentado. Até porque poderíamos incluir no rol dos suspeitos os chilenos, pois exatamente num 11 de setembro, há 28 anos, os militares daquele país, com apoio explícito dos EUA, bombardearam o Palácio La Moneda, ali assassinando o presidente Salvador Allende. Outros suspeitos poderiam ser encontrados se analisadas as guerras da Coréia, do Vietnã, do Golfo, e o embargo a Cuba. A sucessão de erros políticos, táticos e estratégicos protagonizados pelos Estados Unidos, infelizmente, é muito grande.
A situação do mundo há cerca de 20 anos era bem diferente. Com a bipolaridade, havíamos chegado a um equilíbrio imposto pelo medo. Nenhuma das duas grandes potências atômicas, Estados Unidos e União Soviética, queria atirar o primeiro míssel nuclear, porque tinha certeza de que o gesto provocaria a exterminação da espécie humana. Naquele período, entretanto, um país tinha a alternativa de se declarar não alinhado e tomar o rumo que lhe ditasse seu povo.
Atualmente, não há mais essa possibilidade. Por isso, nas reações às imposições unilaterais dos americanos há os que utilizam até o terrorismo para expressar o descontentamento com a monopolaridade a que está submetida a ordem mundial o que já ganhou o nome de globalização, sem que se tenha explicado seu real significado.
O ônus tem que ser assumido pelo Estado americano até que a Nação ianque exija a reformulação do comportamento diplomático do país. O terror, em sua forma mais vandálica, chegou ao coração dos Estados Unidos. Seu povo jamais sofreu na própria carne uma ação de guerra similar. Mais de 400 mil soldados americanos morreram na Segunda Guerra Mundial. Cerca de 60 mil morreram no Vietnã. Mas tudo em terras estrangeiras, em cidades destruídas pela artilharia e pelos bombardeios de seus próprios aviões.
Agora, a guerra chegou à América. É preciso lucidez para enfrentar essa situação sabendo por que e contra quem se luta, antes que as retaliações, tão irracionais quanto o terrorismo, possam se constituir em diplomacia.
Não é possível reconstituir-se a forma de coexistência pacífica por que tanto temos lutado, maneira única de fazer com que os povos do mundo, na imensidão desse sofrido planeta, possam se sentir amigos, irmãos e companheiros de cada povo, de cada cidadão? Seria sonho, utopia? Não acredito. Mas, se for, que há de errado em lutarmos para que nossos sonhos se realizem? Esses sonhos, a rigor, são o desejo ardente da espécie humana, que é gregária em sua natureza, e tem que fazer desse gregarismo uma forma de convivência salutar, com corações e almas empenhados no bem-estar comum.
O dia 11 de setembro de 2001 poderia ser o primeiro dia de uma nova ordem mundial, em que as hegemonias se transformassem em companheirismo, ajuda mútua e respeito à cultura e à soberania dos povos. Afinal, no planeta devem caber todas as nações, raças e credos. Sem terror, medo ou submissão.
- RUBENS BUENO é deputado federal, presidente do PPS-PR e líder da bancada na Câmara dos Deputados
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