Quem tem um pedaço de terra e se contenta em viver à moda antiga, sem a comodidade e os luxos da vida moderna, não precisa de muito para subsistir. Os imigrantes do começo do século - italianos, japoneses, alemães - não ocuparam grandes espaços quando aqui chegaram, mas carregavam consigo um forte ideal (o de realizar-se na América), tinham muita disposição para trabalhar e sabiam que o retorno era impossível. Sabia-se que aquela gente que chegava era mão-de-obra de primeira, que iria gerar riqueza, promover o desenvolvimento, porque já portadora de uma herança cultural agrícola, e de certa tecnologia. Era gente que interessava ao Brasil, e a comprovação disto está aí: a prosperidade a que chegaram os Estados sulinos onde eles fincaram os pés.
Agora, sobretudo nesta última década, vimos assistindo a uma torrente de colonos sem terra e de sem-terras que não são colonos, que buscam tomar dos outros aquilo que (alguns) já tiveram, que era o seu quinhão de terra, mas o venderam em certa época, fascinados pela renda que poderiam obter com o dinheiro aplicado na poupança ou em outro negócio ‘‘rendoso’’, na cidade. Alguns ficaram desalojados pelo represamento de suas áreas, receberam minguadas indenizações e gastaram tudo. Outros eram agregados à terra, trabalhando como empregados, meeiros, porcenteiros, mas expulsos pelo advento da famigerada legislação trabalhista no meio rural, que foi introduzida nos mesmos moldes do meio urbano. Um erro histórico que já comemora 30 anos mas nunca foi corrigido. Outros mal sabem empunhar enxadas e foices, porque são desempregados urbanos que se juntaram ao movimento e com toda certeza visam obter terra gratuita, vendê-la depois, ou arrendá-la, como já acontece, e partir para outra... Sabem bem marchar e obedecer palavras de ordem, mas cultivar a terra...
Não vai ser fácil resolver este problema dos sem-terra com a mentalidade brasileira que impera, porque é antes de tudo um problema social, de desemprego. Porque os autênticos colonos sem terra e mesmo os oportunistas, se empregados estivessem não se lançariam às estradas com mulher e crianças e vivendo como acampados.
Há gente que vive da terra e prospera, mesmo que ela seja pouca. Há quem tem terra e morre à mingua, como o jeca-tatu. Há gente que tem terra e a cultiva com tecnologia, com os manejos adequados e o máximo de produtividade, mas também sofre, pela surpresa das intempéries e pela política de preços. Há os que obtêm financiamento para a produção mas o desvia para outras finalidades, não pagam o empréstimo e pleiteiam o perdão da dívida. Há gente com muita terra, mas improdutiva, corroída pelas incorreções, pela quiçaça e pelo ônus dos impostos, e, com toda certeza, não compensa investir nela e fazê-la produtiva, porque tudo conspira contra o produtor. E há aqueles que diversificam a produção, lutam como touros e teimosamente se mantêm, porque não sabem fazer outra coisa. Muitos não acompanham a modernidade que se exige para o campo, outros não têm recursos para bancá-la. O homem da lavoura é um herói e um falido, a nação precisa comer e depende dele, mas não há uma política agrícola consistente, aliás política agrícola nenhuma!
E gente marchando em busca de terra!!! Se os tradicionais agricultores mal se mantêm, imagine-se o que podem esses pobres, sem recursos de subsistência e manutenção, sem a grana para comprar a semente e o trator e sem a infra-estrutura paralela que a atividade agrícola exige! E se tudo aquilo obtivessem (uma miragem), ainda assim esbarrariam lá adiante com o drama de produzir e não obter preço, a roda viva em que giram há décadas tradicionais e calejados agricultores.
O governo não precisa esperar as invasões para agir. Mas prefere que primeiro ocorram os confrontos, violência e mortes, aí então esboça alguma ação. Falta vontade política. Porque é impossível que os colonos sem terra, que em verdade não são muitos, não caibam num território com 8 milhões e meio de quilômetros quadrados, a maior parte agricultável, e o ano todo.
Junto com esse drama brasileiro dos sem-terra agregam-se todos os vícios e mazelas inerentes, imanentes e aderentes, como a desapropriação de glebas (para assentamentos) que não servem para nada, mas certamente alguém lucrou com essa transação; avaliação oficial acima dos preços de mercado (por que será?!) e isto desperta em certos proprietários o desejo de que suas terras sejam invadidas, para agilizar a desapropriação, e quando isto acontece não são apenas os sem-terra os que ganham...
A terra caiu de preço e muitos pecuaristas querem vender suas fazendas. A criação de gado é ainda uma atividade extrativista, empírica, extensiva, com baixa tecnologia e portanto baixo rendimento. O boi já foi melhor que CDB, era reserva de valor, mas hoje deixou de sê-lo, pela baixa rentabilidade. O pecuarista, hoje, é um homem mais encontrável dentro dos bancos que na fazenda.
É um anseio natural dos colonos sem terra voltar às suas origens (falo de colonos sem terra e não de sem-terras), mas há aí a parte asquerosa, que são os líderes do MST. Nenhum líder é sensato assim como o Regino da novela. Mas se eles não agitam, não irão conseguir sensibilizar o governo e a nação.
É evidente que, junto com o problema social - flagrante demais para ser ignorado - há um problema de segurança nacional, porque está implantado um esboço de guerra de guerrilha, com a quebra do ordenamento legal e da ordem, ainda mais agora que ameaçam com invasões urbanas.
Mas não é só o problema dos sem-terra. É também os dos sem-moradia, dos sem-saúde, dos sem-emprego, dos sem-alfabetização, dos sem-dentes, dos sem-vontade, dos sem-vergonha!

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