Os sem-terra, ex-colonos ou não, que habitam acampamentos e assentamentos, formam uma civilização diferenciada dentro da própria comunidade brasileira, embora no meio urbano também vicejem os milhões de favelados, cuja ambição não é a terra de cultivo e sim uma moradia decente. É o Brasil de co-irmãos diferentes e subjugados, em meio a um mar de riquezas. A reportagem dos jornalistas Fábio Cavazotti e Francismar Lemes, publicada domingo neste Jornal, traça um perfil desta realidade, mas mostra sobretudo que os sem-terra com vocação para a agricultura querem, mesmo, é uma pequena gleba para cultivar e dela extrair o sustento. São os que não têm muita consciência da luta dos líderes dos movimentos; apenas querem trabalhar. Já os jovens criados em acampamentos e assentamentos compõem uma geração que luta pelo poder e não necessariamente pela terra, inoculados pelas palavras de ordem das lideranças. O indicativo é de que, enquanto o Governo não se debruçar sobre um projeto mais avançado de reforma agrária, a pressão tenderá a aumentar. Só no Paraná existem 126 invasões, totalizando 280 mil pessoas dependentes de uma solução agrária que as abrigue com segurança. No Brasil, elas somam 3 milhões – um gigante e poderoso contingente populacional, considerando que são pessoas em estado de ebulição, ativas e dispostas a todo tipo de mobilização, com nada mais a perder. O orçamento para o INCRA do Paraná é baixo, longe das necessidades, que não se solucionam apenas por via de dinheiro mas de bem elaborados programas e estratégias. Existem núcleos de assentados que vão bem, ‘‘mas reforma agrária de verdade, com distribuição de terra e reforma agrícola, ainda não ocorreu’’, critica o bispo dom Pedro Casaldáliga, o guerreiro de São Felix do Araguaia e símbolo da luta em favor dos excluídos. Um sinal forte da nova civilização representada pelos sem-terra sintetiza-se nas palavras da coordenadora pedagógica Maria Zenilda Pingas, com formação estribada na doutrina do MST: ‘‘Precisamos de professores, médicos, engenheiros, e é importante para a luta que eles saiam do próprio meio. O INCRA chegou a contratar um veterinário para nós, porém ele não deu certo, porque não tinha vínculo com o movimento’’, ela afirma. Assim aconteceu com mais outros três técnicos. De um lado a miséria dos acampados, e de outro a estratégia dos comandantes. ‘‘Consideramos a tecnologia como importante para alavancar a luta’’, diz Zenilda. A Via Campesina utiliza a internet para articular as ações, que têm abrangência mundial e conecta-se com poderosas ONGs. O ideal central desses movimentos – pela dedução do que os repórteres da Folha relataram – não é apenas um naco de terra para a subsistência de tanta gente (este o sonho dos colonos mais velhos e resignados) e sim deflagrar uma revolução, pelo uso da força. Os sem-terrinha (as crianças) são educadas para um sentido mais revolucionário. ‘‘A medida que ocupamos uma fazenda, mexemos nos alicerces da sociedade’’, declara Maria Zenilda. O mal se agrava porque muitos pequenos agricultores, endividados e desiludidos, já pensam em abandonar tudo e perfilar com os sem-terra, na esperança de algum socorro governamental. Que custa a chegar, parecendo não chegar nunca. A frustração do INCRA, na busca de resolver essa diversidade de problemas – conforme os repórteres ouviram – está na falta de pessoal, de infra-estrutura e de dinheiro. Mas sabe-se que a falta é sobretudo de vontade. Há terras à venda e há gente querendo cultivá-la com dignidade.

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