A sociedade brasileira é a mais desigual do mundo. Em nenhum outro país é tão grande o abismo entre pobres e ricos. A origem histórica dessa realidade está na concentração da propriedade rural: apenas 1% dos proprietários - cerca de 40 mil famílias - é dono da metade de toda a terra, enquanto o resto está distribuído entre cinco milhões de estabelecimentos agrícolas pequenos e médios. Ao mesmo tempo, no meio rural vivem 4,5 milhões de famílias sem terra alguma.
Como se explica um sistema tão injusto? Durante os primeiros 400 anos de colonialismo, a propriedade agrícola foi organizada tendo por base o modelo de plantação, que combina o latifúndio com uma monocultura dedicada à exportação (como o café ou o açúcar) e mão-de-obra escrava. Quando saímos desse modelo, a Lei de Terras, de 1850, levantou barreiras econômicas para impedir que os escravos se convertessem em camponeses. Por sua vez, a nascente indústria surgiu da associação de capitalistas estrangeiros e setores da oligarquia rural exportadora. Entre 1930 e 1980, o Brasil experimentou um processo de industrialização que transformou suas estruturas econômicas. Manteve-se, porém, a natureza perversa da concentração da riqueza, da renda e da terra.
Essa situação deu lugar a diversos movimentos sociais entre o final dos anos 70 e o início da década seguinte. O primeiro resultado da mobilização popular foi o fim da ditadura militar e a mudança de regime político. Nesse contexto, surge o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Sonhávamos em eliminar a pobreza no meio rural combatendo a sua causa principal: o latifúndio. Nos inspiramos na experiência anterior de movimentos nacionais, com o das Ligas Camponesas, e no intercâmbio com movimentos rurais de outros países.
Desde o início, privilegiamos a mobilização de massas, a luta concreta e o compromisso ativo de todos os membros da família. Ao mesmo tempo, adotamos formas de organização que recuperam a tradição histórica das organizações de classe do mundo inteiro: direção política coletiva, divisão de tarefas, dedicação ao estudo, disciplina, respeito às decisões da maioria, e jamais nos afastarmos das necessidades concretas de nossa base. Através da luta direta, e especialmente com ocupações maciças de latifúndios, o MST obteve um rápido crescimento. Em 15 anos de vida, ocupamos mais de duas mil fazendas, assentamos mais de 350 mil famílias e recuperamos mais de sete milhões de hectares. Mas, no essencial, não conseguimos mudar a natureza do modelo, que continua sendo cada vez mais concentrado e excludente.
Na última década, a luta pela reforma agrária teve de enfrentar um desafio maior. As elites unificaram-se e adotaram um modelo ainda mais perverso, que subordina a economia nacional ao capital internacional, junto com o receituário da política econômica neoliberal. A administração de Fernando Henrique Cardoso, que governa desde 1995, é a expressão do novo modelo, que também exigiu a adequação da agricultura brasileira. Estão sendo adotadas políticas que privilegiam exclusivamente as grandes empresas exportadoras de cereais, a quem são entregues o comércio agrícola e a agroindústria, arruinando o serviço público agrícola: crédito, pesquisa, assistência técnica, armazenagem, todos os mecanismos necessários para manter a agricultura em qualquer parte do mundo.
Nesse modelo - tal como reconhecem os próprios técnicos do governo - não há lugar para a agricultura familiar, para a agricultura dirigida ao mercado local, nem para os pequenos agricultores em geral: apenas 18% dos atuais estabelecimentos agrícolas sobreviverão. Está sendo aceso o pavio de uma bomba migratória de exclusão, jamais vista no setor agrícola brasileiro. Diante desse modelo, seria ingênuo pensar em uma reforma agrária de cunho clássico, orientada para a democratização da propriedade da terra, vinculada a uma política de distribuição da renda e dirigida ao abastecimento da população.
Isso significa que não há espaço para a luta do MST? Há espaço, mas nossa luta deixou de ser apenas uma luta camponesa pela terra. Agora, a subsistência dos milhões de brasileiros que ainda vivem no meio rural depende fundamentalmente da mudança do modelo econômico. Por essa razão, nosso movimento continuará enfrentando o latifúndio, mas uniremos nossas forças com as de outros movimentos sociais que existem no campo, com as igrejas e os sindicatos. E, ao mesmo tempo, ampliaremos nossa luta, o que implica:
- Oposição à política de importações agrícolas - o governo gasta US$ 5 bilhões anuais em importações de bens que podemos produzir dentro do País;
- Oposição às empresas multinacionais que controlam o setor agroindustrial. Apenas três delas - Nestlé, Leite Glória e Parmalat - controlam todo o comércio de leite no País;
- Oposição ao modelo tecnológico que, por meio da engenharia genética, permitirá que seis corporações controlem 70% do comércio de sementes;
É exatamente porque desafiamos o modelo que está sendo imposto no Brasil, e não apenas o latifúndio, que o governo de Fernando Henrique Cardoso e as elites converteram o MST em um inimigo. E estão empregando todas as armas à sua disposição - como os meios de comunicação, a mentira descarada ou a reconstituição de um departamento de polícia especializado em ‘‘sem-terra’’ - para destruir nosso movimento. Nossa luta ficou mais difícil, mas o povo não tem outro caminho. Como disse o grande cronista Luis Fernando Veríssimo, ‘‘o liberalismo seria uma boa solução se não existisse o povo’’. Portanto, continuaremos lutando, ainda mais do que antes.
- JOÃO PEDRO STEDILE é economista e membro da direção nacional do Movimento dos Sem-Terra (MST)

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