Sem tapar o sol com a peneira
Aos poucos, a droga deixa de ser tabu. A TV a escancarou. Na novela das oito, o tema tomou conta da telinha. Primeiro foi a vez do velho viciado. Lobato depende do uísque. E não consegue largar a cocaína. Depois, veio a garotada. Nando e Cecéu curtiam o barato em casa. Atrevidos, passaram a fumar e a cheirar na praia e em boates.
Mel veio em seguida. A garota rica sentia-se solitária. Apaixonou-se pelo segurança. A mãe fez e aconteceu para separar o casal. Desamparada, Mel procurou os amigos. Eles lhe apresentaram a solução mágica. Ah, alívio! Hummmm... prazer! No dia seguinte, a vida real. Melhor dar uma cheiradinha. Outra. E outra. A degradação é crescente. Logo a mocinha será presa. E descobrirá estar grávida.
Telespectadores dividem-se. Uns aplaudem a ousadia de levar o assunto à sala de jantar. Outros criticam. A alegação: nem todos assistem a todos os capítulos. O jovem que visse Mel vencer a dor com uma varinha de condão poderia pensar que ali estava a solução para os próprios dramas.
Entrevistada, a autora falou. Disse que as cenas de Mel e Lobato vêm coladas. Se uma mostra a face luminosa da maconha ou da cocaína, a outra revela o lado infernal: o preço do vício.
O Clone toca num senhor problema. A maioria dos pais não sabe lidar com ele. Por que irmãos, criados no mesmo meio e com os mesmos cuidados, escolhem caminhos diferentes? Por que uns, movidos por natural curiosidade, experimentam a erva ou o pó e o abandonam? E outros se tornam escravos?
Sem hipocrisia, a novela exibe as duas faces da moeda. De um lado, a prazerosa. De outro, a dolorosa. É diferente das campanhas antidrogas. Caretas, elas só denunciam os estragos. A moçada não acredita no que vê nem no que ouve. A publicidade torna-se aliada do mal que julga demover. Só há um jeito de mostrar a realidade. É mostrando.
Uma novela com personagens que se identificam com milhares de pessoas é mais eficaz que propagandas estereotipadas. A força de penetração do folhetim elucida o problema. O telespectador se põe na pele de Mel, Lobato, Clarice, Lucas. Vivencia o drama junto com eles. O jovem sabe (ou descobre) que a droga é um atalho para o céu. Mas é uma cilada. Não vale a pena pagar o pedágio. Os pais se dão conta de que o perigo está dentro de casa. Não adianta bancar o avestruz. Uns e outros são vítimas. Pedem socorro. A resposta é a informação. Não adianta tapar o sol com a peneira.
DAD SQUARISI é jornalista em Brasília





