Sem medo dos transgênicos
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de abril de 2003
Ywao Miyamoto 
Sobre artigo publicado na Folha na última quarta-feira, de autoria do sr. Luiz Antônio Fayet, apesar do esforço dele, o assunto foi tratado de forma muito superficial e imediatista do ponto de vista da economia financeira, além de resumir o tema a meras vendas especiais e preços vantajosos. Não estamos discutindo se a soja transgênica RR traz vantagem para agricultor, se faz mal aos consumidores ou se estamos perdendo mercado ou não! Tudo isso já está claro nas centenas de estudos e trabalhos apresentados.
Segundo a professora titular do departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, dra. Maria Helena Zanetini, ''antes de criticar esses alimentos, é preciso saber que há mais de 70 anos os pesquisadores vêm realizando cruzamentos entre plantas, com o objetivo de transferir genes de uma espécie para outra. Durante todo esse tempo, o tomate, a batata, o milho, o trigo, a aveia e outros vegetais que você come diariamente já possuem genes que eram, originalmente, de outras espécies.
Ou seja: os transgênicos não são nenhuma novidade. O que mudou, foi o surgimento de novas técnicas de modificação genética. A mais importante delas é chamada 'técnica de DNA recombinante'. Ela permite que se possa isolar um gene de uma espécie para que ele seja colocado em outra planta, sem a necessidade de compatibilidade sexual.
Desde 1995 produtos geneticamente modificados estão sendo comercializados. Ao todo, 13 países cultivam estas plantas que têm sido consumidas por milhares de pessoas sem nenhuma evidência de efeitos negativos. O que pouca gente sabe é que os trangênicos estão presentes em nossas vidas há vários anos. A maior parte da insulina utilizada no mundo para o tratamento de diabéticos, por exemplo, é obtida por engenharia genética: um gene humano sintético, inserido em uma bactéria, produz uma réplica exata da insulina humana. O curioso é que o cidadão que entra numa manifestação contra estes alimentos sem nenhum conhecimento sobre o tema é o mesmo que consome com entusiasmo, sem saber, diversos desses produtos: da vacina contra a gripe até o hormônio de crescimento para crianças com nanismo.
O que não se pode ter é uma espécie de medo irracional diante desses alimentos mesmo depois que eles são submetidos a testes rigorosos sem apresentar nenhum problema à saúde humana ou ao meio ambiental. Afinal, não se pode desperdiçar o potencial da engenharia genética pela falta de informação ou pelo uso político de grupos que, em vez de debater seriamente o assunto, fazem manifestações ingênuas contra o avanço dessa tecnologia sem ao menos conhecer seus métodos. Não é a população que deve temer cegamente os alimentos geneticamente modificados. Quem tem razões para atacá-los são os produtores de inseticidas e agroquímicos, já que a biotecnologia deve criar plantas cada vez mais resistentes a pragas, diminuindo a necessidade do uso desses insumos.
Congresso, partidos políticos, entidades da sociedade civil e a comunidade científica, que pouco vocaliza suas opiniões, não podem ficar calados ante uma questão tão decisiva para o futuro do nosso povo. Não é hora para conciliação. A transgenia não é sinônimo de capitalismo nem de dominação estrangeira. É instrumento da modernidade e básico para um desenvolvimento sustentável.''
Assim, atestamos a forma com que autoridades renomadas entendem e tratam do assunto.
YWAO MIYAMOTO é presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja)


