Inovação maior é ter iniciativa, sem medo de prejuízo político
Ninguém quer ser o primeiro de verdade



A escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014 trouxe para o País uma série de vantagens e de responsabilidades. Até a disputa da decisão da competição no Maracanã, os olhos do mundo estarão voltados para os gramados tupiniquins. Mas para que um evento de porte mundial seja bem-sucedido, diversas obras precisam ser concluídas pelos organizadores.

Tais medidas exigem licitações para compra de materiais e contratação de mão de obra para execução das obras. E a eficiência não pode ser a única preocupação pelos responsáveis pela organização do evento. Outro foco importante é a sustentabilidade.

Para a arquiteta e consultora Laura Valente de Macedo, diretora para América Latina e Caribe do Iclei (sigla em inglês para Conselho internacional de Iniciativas Ambientais Locais), os municípios devem aproveitar a oportunidade de privilegiar as compras susntentáveis nas obras da Copa do Mundo. O Iclei é uma associação internacional de governos e organizações governamentais comprometidos com o desenvolvimento sustentável.

Laura cobra que os governantes tenham iniciativas inovadoras e coragem para arriscar, independentemente das amarras da Lei de Licitações. ''Quando um governo local faz uma compra pública e faz uma licitação, prepara um edital, ele direciona um mercado. Ele pode criar o mercado, fortalecer um mercado ou optar por algo que pode até destruir um mercado. Os governos não optam pela sustentabilidade'', lamenta.

Por que quando se fala em inovação é importante lembrar da sustentabilidade?
Sustentabilidade é uma direção que está se firmando há alguns anos, mas muito no discurso e pouco na prática. A inovação maior está em ter iniciativa, ter coragem e fazer, sem medo de prejuízo político, por exemplo. Muita coisa depende de vontade política. A maior dificuldade hoje está na falta de coragem política. Nossa sociedade não gosta de arriscar.

Mas não dizem que é uma característica do brasileiro ser empreendedor?
A gente fala que o povo brasileiro é inovador, mas não arrisca. Nossas lideranças arriscam pouco. Nossos empresários também. Não estamos falando de todo mundo, por isso que tem sempre aquele que é o inovador, porque vai além de ser o segundo. Ele quer ser o primeiro. Ouvi uma expressão interessante: ''Todo mundo quer ser o primeiro a ser segundo.'' Ninguém quer ser o primeiro de verdade.

É fácil inovar de forma sustentável?
A cidade inovadora e o líder inovador são aqueles que vão além. Porque às vezes as pessoas falam que quando alguém faz algo de novo e que dá certo, recebe toda a atenção. Outras vezes, vêm criticar. Dizem: ''Isso era fácil, outras pessoas já fizeram''. E por que não fez? A questão é fazer. Falar, a gente fala das mesmas coisas há séculos. Mas pouca gente tem coragem de fazer. A sustentabilidade é uma direção que precisamos seguir porque não vamos ter opção. E se a gente não agir rápido, não vai dar tempo.

Qual a relação entre a sustentabilidade e a Copa do Mundo de 2014?
Faltam quatro anos. É pouco tempo, mas já existem muitas soluções que estão aí, à mão. E não é nada genial. Tem que criar as políticas, implementar e, mais do que tudo, dar o exemplo. Às vezes as pessoas falam que é difícil induzir as pessoas a separar o lixo, a economizar luz e água. Começa dando exemplo. Os governos locais movimentam muito dinheiro, são consumidores de grande escala. Quando um governo local faz uma licitação, prepara um edital, ele direciona um mercado. Ele pode criar o mercado, fortalecer um mercado ou optar por algo que pode até destruir um mercado. Os governos não optam pela sustentabilidade.

E como fazer essa opção?
Por exemplo, o poder de compra dos governos locais tem que ser usado como um instrumento para promover a sustentabilidade. Como se faz isso? Com a compra, por exemplo, de produtos sustentáveis. Vão dizer: ''Não tem opção no mercado, tem que respeitar o princípio da isonomia, da igualdade de participação pela Lei 8.666''. Dizem que não pode fazer nada por causa da lei. Não é verdade. Se você for além do que está escrito na lei, tem muitas oportunidades. Se diz assim: ''Não posso comprar papel reciclado porque eu tenho que comprar papel branco''. Não é verdade. Se você colocar no seu catálogo de compra o papel reciclado, é possível. As compras públicas constituem uma ferramenta importante, que pode ser usada para promover a sustentabilidade.

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