A criança que não aprende quais são seus limites em casa não os terá fora de casa. Os primeiros anos de vida são fundamentais para ela aprender o que é o mundo, o que é a vida e quem tem que ensinar isso são os pais. O recado foi dado pela filósofa e mestre em educação Tânia Zagury, que esteve anteontem em Londrina. Ela fez a palestra ''Limites sem trauma'', durante o 6º Congresso Nacional Amor Exigente, que termina hoje no Complexo Marista. O encontro reúne mais de mil pessoas de todo o Brasil.
Com 54 anos, dois filhos, e autora de livros sobre a relação entre pais e filhos, entre eles ''Limites sem traumas'', editado em 2000 e na 57 edição, Tânia Zagury destacou que tem havido uma culpabilização excessiva dos pais. ''Temos tarefas importantíssimas a desenvolver, muita responsabilidade sobre o que vai ocorrer com os filhos, mas cheios de culpa, os pais se sentem perseguidos. Antes, quem tinha medo dos pais eram os filhos. Hoje os pais é que têm medo dos filhos, medo de traumatizar, medo de agir errado'', compara.
Essa situação, entende a educadora, se deve ao conceito errado de psicologia, que ela chamou de psicologismo. Com medo de traumatizar os filhos, os pais acabam sendo permissivos, deixando de educá-los. Desta forma, perdem a autoridade e deixam de cumprir o papel de educadores, passando a ser vítimas das crianças que fazem tudo o que querem. ''Ficar zangado, dizer não e dar limites, dizendo sim sempre que possível e não sempre que necessário não traumatiza ninguém'', esclarece a educadora.
Fundamental no processo de educação, segundo Tânia Zagury, é os pais darem visibilidade ao amor que sentem pelos filhos, sendo carinhosos e elogiando as atitudes corretas e o bom comportamento. ''O elogio autêntico é precioso. Mas quando a criança sente a insegurança dos pais, ela se torna tirana'', diz, concluindo que aí surge uma visão distorcida do mundo. ''Estamos assistindo pais incapacitados de organizar a vida dos filhos pequenos, achando que não pode contrariá-los''.
A disponibilidade para os filhos, mesmo na situação atual em que, conforme pesquisas, 50% das mulheres trabalham fora, também é destacada pela filósofa. ''Estar atento aos filhos não quer dizer chegar em casa e ficar 100% do tempo exclusivo para eles. Mas fazer as tarefas de casa juntos, ir conversando enquanto esquenta o jantar, ouvir o que eles têm para dizer e contar para como foi o seu dia, suas preocupações'', exemplica.
Ensinar noção de justiça e de igualdade também é fundamental no processo de educação. ''Todas as pessoas devem ser tratadas com igualdade, com as mesmas regras, apesar das diferenças''. Na opinião da estudiosa, a criança que não aprende a ouvir o não também não saberá dizer não quando for testada pela sociedade, ou quando for chamada para usar drogas, por exemplo.
Um dos grandes inimigos dos pais, considera a filósofa, é a televisão, que o tempo todo difunde noções de consumismo (valorizando o ter), fazendo sátiras dos valores positivos como a solidariedade e incentivando a sexualidade precoce. ''A falta de ética na mídia é algo muito sério. E as pessoas continuam valorizando a TV. Quanto mais ascende socialmente mais aparelhos tem em casa'', indigna-se. E alerta: ''As informações que, muitas vezes, contrariam o que os pais pensam, estão sendo jogadas despejadas sem qualquer questionamento''.
Nesse sentido, a educadora aconselha os pais a aproveitar as situações para desenvolver uma atitude reflexiva e crítica nos filhos. Ela cita, por exemplo, a importância de assistir programas de TV junto dos filhos, fazendo comentários (não dando aulas de moral) sobre o que consideram correto ou não. ''Com isso, os filhos vão percebendo que nem tudo o que a TV mostra é certo'', diz ela.
Sobre o papel na formação dos filhos, Tânia Zagury lembra que antigamente as mães ficavam em casa e ensinavam, corrigiam, davam bronca e castigo. ''Hoje as crianças ficam à mercê da televisão''. A educadora ressalva: ''Não quero demonizar, mas a TV é um elemento que vem de fora para trazer o que se está desejando que a gente faça''.
Outra questão acentuada por ela é a forma encontrada pelos pais para compensar ausências e sentimento de culpa com bens materiais. ''Se você der tudo o que eles querem, não aprenderão a lidar com frustrações. E isso é um passo para o caminho das drogas, da violência que gera adrenalina, de emoções em busca de satisfação'', adverte.
Sobre a grande angústia enfrentada pelos pais quando dizer sim e quando dizer não Tânia Zagury orienta: ''Pense em quais valores você pretende que ele desenvolva. Que tipo de filho você quer que ele seja antes de responder''. A filósofa destaca que a missão dos pais é árdua única profissão que não tem férias, 13º salário, nem aposentadoria. ''Mas é uma luta que vale a pena quando você pode dormir em paz e apresentar para a sociedade um ser humano com ''h'' maiúsculo '', conclui.

mockup