Fim de tarde de domingo. No calçadão apinhado de gente, casais de namorados passeiam abraçados, crianças passam correndo, amigos jogam conversa fora saboreando uma cervejinha gelada à sombra de quiosques, o pagode rola solto, candidatos nos lembram que estamos em ano eleitoral e fazem campanha corpo a corpo.
Não estamos em Ipanema, ou na Barra da Tijuca ou em qualquer outra praia brasileira. Estamos em Brasília, à beira do lago Paranoá, há até bem pouco uma grande porção de água distante do dia-a-dia do brasiliense. O clima é de descontração e bom humor, bem ao estilo das cidades litorâneas, onde a praia e o mar estão incorporados à vida de seus habitantes e interferem nas relações humanas e sociais.
Num desses equívocos históricos que ninguém consegue explicar exatamente como e por que ocorrem, Brasília, contrariando as noções urbanísticas desenvolvidas pela humanidade ao longo dos séculos, foi construída de costas para o lago - por sua vez, construído para servir de reservatório de água para os futuros moradores da capital.
Como consequência, durante quase quatro décadas, o brasiliense - com exceção de uma minoria - nunca viu o lago Paranoá como algo que lhe pertencia, que ele poderia usufruir no seu cotidiano. Ao contrário, sua posse e seu uso sempre ficaram restritos a uma minoria de privilegiados que construíram mansões às suas margens ou são sócios dos clubes erguidos à beira do lago. Ou que têm poder aquisitivo para desfrutar dos caros esportes aquáticos.
A distância da comunidade com seu lago sempre foi gritante. A ponto de nenhum projeto visando a aproximar um do outro ter sido bem-sucedido, como a fracassada ciclovia no Lago Sul e a hoje quase abandonada Área de Lazer do Lago Norte. O fato é que nunca houve uma interação do brasiliense com as águas do seu lago, apesar do clima desagradavelmente seco que assola a cidade de junho a setembro.
Viver perto do lago ou usufruir da serenidade de suas águas sempre foi visto como símbolo de status social, típico de uma cidade que, há até alguns anos, era dividida em castas bastante definidas, de acordo com o endereço das pessoas: do Lago Sul à Ceilândia.
Hoje, Brasília parece estar um pouco menos sectária, em parte devido à ocupação desordenada de áreas até então consideradas nobres, mas também devido à proliferação da classe média pelas cidades-satélites do Distrito Federal e pelo elevado poder aquisitivo de boa parcela da população: a cidade tem a maior renda per capita entre todas as capitais brasileiras.
A ocupação popular do lago, por enquanto limitada a um calçadão de algumas centenas de metros, não parece ser apenas mais uma tentativa de integrar às suas margens a comunidade. E nem pode ser encarada apenas como uma oferta de lazer a mais para o brasiliense.
A criação de um espaço público bem mais descontraído que os clubes, píeres e jardins particulares que margeiam o Paranoá pode estar representando um importante passo para ampliar a democratização das relações humanas e sociais na cidade.

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