Sem exclusões - Padre Manuel Joaquim R. dos Santos
Sem exclusões Padre Manuel Joaquim R. dos Santos O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic) assina neste ano a tradicional Campanha da Fraternidade da Igreja Católica Apostólica Romana. É um gesto de coerência muito nobre, da parte de gente que professa o nome do mesmo Deus e Senhor e que ao longo de séculos nem sempre deu testemunho de unidade entre si. Dignidade Humana e Paz são os temas apresentados para uma ampla reflexão. Além disso, as entidades autoras do projeto sonham com um Novo Milênio livre de qualquer exclusão. É claro que o fato de estarem unidas, é já em si uma vitória sobre as recíprocas exclusões e excomunhões que caraterizaram a vida destas Igrejas até há poucos dias. Querem acima de tudo testemunhar. Os tempos são de ecumenismo e de aproximação e a necessidade de investir no que é motivo de unidade, supera as visões prosélitas que ainda sobreviviam no seio dessas instituições. Na verdade, muito mais do que um estudo ou propaganda de idéias, visa-se realizar uma experiência concreta daquilo que se anuncia, começando nas próprias Igrejas e fazendo parceria com pessoas de boa vontade, que se importam verdadeiramente com a dignidade humana e a construção da paz (texto base 25) Quem nunca tropeçou numa exclusão? Quem nunca se sentiu excluído? Quem pode dizer que nunca excluiu? O anfiteatro da história dos homens é recheado de atitudes e posturas exclusivistas. Todos os homens são iguais, mas uns são mais iguais do que outros!... É o que nos fala uma célebre expressão francesa. Desde o que não tem roupa para participar de uma simples festa ao que não tem um diploma para apresentar na hora de pelejar um trabalho... eis a fila interminável dos que ficam de fora. As causas que provocam e legitimam as cenas desse ato em que os homens são protagonistas de tantas exclusões, são as mais variadas. Primeiro nos confrontamos com a aceitação como algo inapelável, de uma sociedade dividida em duas: a dos que têm importância e a dos que não precisam ser considerados como seres humanos. A segunda é tão terrível como a primeira: a banalização do inaceitável: as tragédias, de tão vistas, tornam-se paisagens comuns que não despertam mais reação. As estruturas econômicas e o sistema político vigente não são alheios a esta questão da exclusão e dos atentados contra a dignidade humana. A idolatria do mercado, onde o deus que domina é o lucro, vem provocando uma autodestruição da humanidade, como bem sublinharam os bispos e os pastores em seu texto base da atual Campanha da Fraternidade. Tudo a serviço do crescimento econômico, como se ele fosse símbolo ímpar de desenvolvimento social e respeito pelas minorias, ou quem sabe, conduzisse per si a uma erradicação da pobreza neste país! Mas as constantes agressões à dignidade humana dos brasileiros e brasileiras têm também sua origem em claras opções humanas. Não poderia ser diferente num país em que até já se falou que Deus é brasileiro! As escolhas políticas, num ambiente em que a democracia é débil e em que o sistema tradicional, é apenas instrumento de manutenção e reprodução dos interesses de uma minoria, impõem caminhos políticos e sociais sem qualquer ética. A cobrança dos eleitores é precária e o fato de estarem mantidos em situação de carência absoluta, abre caminho para a corrupção eleitoral. Sem educação e acesso à informação, fica difícil o exercício da cidadania. A falta de controle sobre os grandes meios de comunicação, por parte do povo, torna fácil enganar a opinião pública e desviar o epicentro de grandes discussões. Temos os fatos recentes da história de Londrina. O povo alheio ao que realmente acontecia nas esferas políticas, endossava pela negativa, atitudes que tiveram lugar no Executivo e no Legislativo. Os senhores vereadores recusaram-se em várias ocasiões a incluir seus representados em suas históricas decisões. A exclusão se deu de fato, quando os londrinenses se sentiram ludibriados e pior do que isso, não representados! Mas quem ficou excluída mesmo do grande banquete, foi essa massa enorme de cidadãos e cidadãs de Londrina, que viram mais uma vez os elementos básicos da civilização passarem ao largo! Saúde, escola, segurança, esgoto etc. Como sempre, a corda rompe pelo lado mais fraco! A Campanha da Fraternidade é história deste Brasil, desde os anos 60. A cada ano, assuntos como educação, terra, emprego, menores de rua, negros, política, trabalho etc. fazem parte do horizonte de reflexão de milhões de homens e mulheres que visam uma conversão interior e a transformação da sociedade brasileira. A deste ano não será diferente; católicos e evangélicos de mãos dadas, rumo à vivência profunda e radical do ideal de Jesus Cristo. - PADRE MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é pároco da Igreja Imaculada Conceição em Londrina e assessor eclesiástico do Conselho Arquidiocesano de Comunicação





