SEM CORPO MOLE - Estabilidade: um mal necessário
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sábado, 29 de novembro de 2008
Herika Fondazzi<br>Reportagem Local 
Funcionário público, via de regra, é mal visto pela população em geral. Desinteressado, burocrata, ocioso são apenas alguns dos adjetivos nada lisonjeiros atribuídos a esses servidores. Ana Lucia Romero Novelli é londrinense e, há 11 anos, é diretora adjunta da Secretaria de Pesquisa e Opinião Pública do Senado. Em entrevista à FOLHA, ela fala sobre sua experiência no trabalho público, da burocracia e da visão distorcida do funcionalismo público.
Quais os trabalhos desenvolvidos pela Secretaria de Pesquisa?
Trabalhamos com seis áreas de atuação: TV Senado, Rádio Senado, Jornal do Senado, Agência de Notícias e Departamento de Relações Públicas e Opinião Pública. Tornamos o trabalho da Casa acessível à comunidade. Divulgamos tudo o que está sendo feito, ouvimos as reclamações e sugestões da população e também fazemos pesquisas de opinião sobre os projetos em tramitação, para que os senadores saibam o que as pessoas estão querendo, pensando.
O brasileiro é um povo que participa das decisões políticas? Quem utiliza esse tipo de serviço de acesso aos senadores?
Temos pessoas de todas as classes, desde universitário até gente com pouca instrução, de jovens a idosos. O que vem mudando bastante é a participação das mulheres, que aumentou muito nos últimos três anos. Hoje o público feminino é cerca de 40% do total de pessoas que nos procuram. Temos as possibilidades de cartas, e-mail e o telefone 0800, que aproxima as pessoas das classes sociais mais baixas.
E essa participação realmente tem algum efeito sobre as decisões dos políticos?
Esse tipo de governança ainda está começando no Brasil e precisa ser melhor estruturada e universalizada. Nosso papel é aproximar o cidadão do poder público e isso tem acontecido. As pessoas ligam sugerindo leis, comentando discursos. Os políticos de maneira geral gostam e até querem ter mais abertura com a população, o que torna a política algo mais sério.
O brasileiro ainda tem um grande preconceito com o servidor público e com os políticos de maneira geral. Você sente isso em seu trabalho?
Também acreditava que funcionário público não trabalhava na época que estava na faculdade. Mas isso não é 100% verdade. A maioria das pessoas sabe a importância de seu trabalho, gosta do que faz e se dedica de verdade. Mas também temos aqueles funcionários que fazem corpo mole, que não se comprometem porque sabem que não serão demitidos.
A estabilidade no emprego seria um problema?
A estabilidade é necessária para que o funcionário tenha uma blindagem contra a decisão política. Se ela não existisse, cada vez que um novo governante entrasse, muita gente seria mandada embora e o trabalho ficaria impossível de seguir, pois ficaria ainda mais lento do que já é naturalmente.
A lentidão do processo político também é outra coisa que incomoda muito a população. Como lidar com ela?
A burocracia é algo necessário porque traz lisura e transparência, para se evitar fraudes e desmandos. Não podemos esperar do poder público a mesma agilidade de uma empresa, por exemplo. Se o diretor de uma empresa decide fazer algo, ele simplesmente vai lá e faz. O político não pode agir assim, precisa de aprovação da maioria, de redigir projetos longos e bem elaborados. Isso exige muito trabalho e, consequentemente, burocracia.


