A sociedade brasileira está dando claros e fortes sinais de stress e de grande ansiedade em relação ao futuro. A par dos graves problemas econômicos que atingem nossas famílias, a visão do comprometimento de segmentos dos ‘‘poderes constituídos’’ com o crime organizado, e a impunidade, vão criando um caldo de cultura de desespero, propício a radicalizações.
Para complicar, nosso presidente continua achando que não tem nada a ver com isso, demonstrando que está muito mal informado sobre a nossa realidade econômica. Mas afinal, que podemos esperar nos próximos 12 meses?
Vejamos alguns pontos:
1 - Conforme previmos há quatro anos atrás, o Brasil tinha a necessidade de reajustar o câmbio para recuperar o crescimento.
Feita a lição de casa, com a desvalorização do real diante do dólar, começaram a aparecer os bons resultados: substituímos importações e aumentamos exportações, podendo-se prever pequeno saldo comercial este ano. Os resultados não serão melhores porque depois de quatro anos consecutivos destruindo as atividades produtivas do País, a reação só poderia ser lenta. Adicione-se a isso que a recuperação de exportações de produtos técnicos (por exemplo as autopeças), leva no mínimo um ano para se reestruturar, e que nossos principais produtos de exportação estão com os piores preços dos últimos 20 anos. Por outro lado, o petróleo que importamos em grande escala, inversamente, está com os mais altos preços dos últimos 20 anos.
Analisando o quadro abaixo, já poderemos sentir um pequeno alívio, com o crescimento da produção industrial e do emprego. Mas a mudança da política cambial ainda não nos permitiu ter os saldos médios anuais US$ 12,2 bilhões, que tivemos de 1991 a 1994.
QUADRO I - INDICADORES DE CONTAS EXTERNAS E DÍVIDA PÚBLICA
1990 - 1991 - 1992 - 1993 - 1994 - 1995 - 1996 - 1997 - 1998 - 1999 -
1 - Saldo da Bal. Com. * - 10,57 - 10,58 - 15,31 - 12,40 - 10,44 - -3,16 - -5,55 - -8,36 - -6,47 - -1,21 -
2 - Dívida Ext. Total * - 123,44 - 123,91 - 135,95 - 145,73 - 148,30 - 159,26 - 179,94 - 200,00 - 243,16 - 236,94 -
3 - Dív. Pública (Fed., Est., Mun. e Bacen)** - - - - - 116,927 - 162,936 - 221,750 - 283,634 - 362,173 - 487,001 -
4 - Reservas (Conceito Liquidez)* - 9,97 - 9,41 - 23,75 - 32,21 - 38,81 - 51,84 - 60,11 - 52,17 - 44,56 - 36,34 -
Notas: (*) Bilhões de dólares, (**) Bilhões de reais.
Entretanto, o Brasil é um dos melhores lugares do mundo para investimentos e os donos do dinheiro mundial estão com poucas alternativas; logo, o fluxo de investimentos deve continuar. Assim, temos a esperança de que a recuperação econômica continue.
2 - Com respeito aos preços, podemos ter uma certa tranquilidade, mas não tanta.
Em 1999, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) cresceu 8,43%, mas o Índice de Preços por Atacado (IPA) cresceu 28,88%, o que caracteriza uma inflação represada.
Prova disso é que os cartéis (automóveis, aço, cimento, alumínio, petroquímicos) já disparam os reajustes e, as tarifas públicas, sob o patrocínio do governo, também estão ‘‘mandando bala’’.
No contraponto, as conservadoras reduções dos juros, os serviços pessoais e a variação cambial abaixo do que seria razoável, estão segurando os reajustes. Entretanto, se a economia crescer, dificilmente será atingida a ‘‘meta de inflação’’ de 6%, baseada no IPCA, que varia próximo do INPC, salvo se adotadas fórmulas mágicas de intervenção, que depois vão estourar multiplicadas lá na frente.
O quadro abaixo mostra uma série de indicadores que caracterizam bem estas razões de dúvida.
QUADRO II - INDICADORES DE VARIAÇÃO DE PREÇOS
1990 - 1991 - 1992 - 1993 - 1994 - 1995 - 1996 - 1997 - 1998 - 1999 -
1 - Inflação Anual % IPA - 1449,52 - 471,67 - 1154,31 - 2639,87 - 1029,19 - 6,38 - 8,1 - 7,8 - 1,5 - 28,88 -
2 - IGP-M FGV - 1699,59 - 458,37 - 1174,67 - 2567,34 - 1246,62 - 15,24 - 9,19 - 7,74 - 1,79 - 20,11 -
3 - IPCA - 1620,97 - 472,69 - 1119,1 - 2477,15 - 916,43 - 22,41 - 9,56 - 5,22 - 1,66 - 8,94 -
4 - INPC - 1585,18 - 475,11 - 1149,06 - 2849,11 - 929,32 - 21,98 - 9,12 - 4,34 - 2,49 - 8,43 -
IGP-M= IPA c/ 60% + INPC c/ 30% + IND. CONST. CIVIL c/ 10%
Meu entendimento é de que ter uma inflação entre 8 e 10% neste ano, para a economia crescer entre 4 e 5%, seria um grande negócio para o País.
Entretanto, tem um ponto para o qual chamo a atenção há pelo menos dois anos: a loucura da política cambial no período 96/98, associada a outra loucura, as maiores taxas de juros do mundo, construíram um imenso ‘‘barril de pólvora’’, composto da dívida interna e da dívida externa (Q-I), que atingiram níveis difíceis de administrar e, sempre ameaçam a estabilidade de preços.
A concordata externa já foi assinada com o FMI, mas o concordata interna ainda está por vir, e vem, não se sabe como nem quando.
O Banco Central tem consciência disso e até o ministro da Fazenda recentemente afirmou que a inflação ainda não está dominada.
O certo nesta questão de preços é que, conforme a posição de cada um, o impacto será diferente. Para a indústria de autopeças em 2000, por exemplo, ultrapassará os 10%. Já para o ‘‘povão’’, o custo de vida estará bem mais alto do que dizem os números oficiais. Aliás, está difícil explicar para o povo, como os preços dos bens e serviços sobem acima de 10% em 12 meses e os índices da inflação ficam na faixa de 6%.
3 - Os juros (custos financeiros) começam a ceder, mas sem milagres. Reduzir as taxas de juros primários para 16,5%, como fez o COPOM, é importante mas não é tudo. A diminuição dos depósitos bancários compulsórios no Bacen ajuda muito a aumentar a massa de dinheiro no mercado e assim a provocar baixas nas aplicações. Mas em nosso caso existem dois fatores que são responsáveis por parte substancial do custo do dinheiro, que não tem dado folga para reduções: o aumento da carga tributária sobre operações e movimentações financeiras em geral e o fator risco decorrente das inadimplências e dos recursos judiciais.
Convém lembrar que a redução dos custos financeiros é importante para lubrificar as relações econômicas, mas fundamental mesmo é ter ‘‘mercado’’ para nossa produção, que no caso brasileiro significa aumentar as exportações e distribuir renda.
Feita esta observação, hoje já poderíamos tirar de prioridade os juros para nos concentrarmos em outras questões.
4 - A política cambial é a grande alavanca de que dispomos para gerar crescimento econômico e distensão social.
O Quadro I prova a afirmação. A partir da desvalorização do real, substituímos importações e ampliamos exportações e estamos tentando retomar a tradição de gerar saldos comerciais. Entretanto, a forma como o Banco Central vem interferindo no câmbio não dá segurança aos exportadores.
O dólar de R$ 1,80 como hoje está, deflacionado aos preços de janeiro de 1999, equivale a R$ 1,43, quando a cotação oficial era de R$ 1,20. Consequentemente, o reajuste cambial efetivo que temos hoje é de 19,17%, que é inferior ao necessário para compensar as diferenças das estruturas de custos com o resto do mundo.
Por sua vez, o balanço de pagamentos do País tem uma posição crítica, prevendo-se para este ano um déficit próximo de US$ 30 bilhões, que poderá ser aliviado se entrarem novos empréstimos e investimentos externos. Este rombo provavelmente se repetirá nos anos seguintes. Logo, fica claro que o preço do dólar já deveria estar acima de R$ 2, para tentar garantir crescentes saldos nas contas de comércio e de turismo, e assim tentar diminuir o déficit gerado pelas remessas de juros, dividendos, e pagamentos de empréstimos, que apresentam valores rígidos.
Deixar nossa moeda desvalorizar até o nível lógico da conveniência nacional não é pecado. Na crise da Ásia em 1997, o Japão, a segunda maior economia do mundo, desvalorizou o iene em aproximadamente 50%. Todos os países da região fizeram o mesmo e em índices maiores e, assim, rapidamente contiveram a hemorragia de suas economias.
Quanto menos se trabalhar corretamente na política cambial, mais penosa será nossa recuperação.
5 - Concluindo: sou cético quanto a atuação da equipe econômica como um todo. É a mesma que criou a situação atual, é a mesma que já disse e desdisse perspectivas de um futuro promissor e, assim, está muito comprometida com o passado e em inventar notícias ‘‘boas’’, mesmo que sem maior significação, tais como: superávit fiscal de um mês, saldo da balança comercial em um bimestre; aumentos de arrecadação sem expurgar o acréscimo de carga tributária, melhoras nas bolsas ontem etc.
O governo está inerte. Sem pressões fortes não se moverá; logo, se a sociedade organizada não atuar, pressionando parlamentares e governantes, a coisa continuará se arrastando à espera de um milagre que não virá, pois o que está mais próximo por vir é o aumento dos conflitos.
Ousadia nas desvalorizações do real, redução da carga tributária e do Custo Brasil são as bandeiras a empunhar e urgentemente. Não adianta ficar na conversa.
- LUIZ ANTONIO FAYET é economista, consultor de empresas e membro do Conselho Regional de Economia do Paraná. Foi deputado federal e presidente do Banco do Brasil
[email protected]
www.fayet.com.br
Excepcionalmente, Luiz Geraldo Mazza não publica sua coluna hoje.

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