Segurem os bolsos - Kido Guerra
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de setembro de 1998
Kido Guerra 
Luiz Inácio Lula da Silva bem que tenta alertar os eleitores brasileiros sobre o futuro negro que nos espera depois de abertas as urnas do dia 4 de outubro. Lula esperneia e esbraveja, mas em vão. Falta, hoje, ao candidato do PT a credibilidade perdida nas eleições de 94, quando o Plano Real foi denunciado como eleitoreiro de forma desastrada pelo partido.
Quatro anos depois, com inflação baixa e a ilusão de que o real é uma moeda forte, o eleitor quer a manutenção dessas duas conquistas. E a maioria, segundo pesquisa quantitativa feita pelo Instituto Vox Populi, não acredita que Lula seja o nome ideal para dar continuidade ao Plano Real e assegurar a inflação baixa. Além disso, o alerta do candidato acaba tendo conotação eleitoral, assim como as críticas feitas ao Real, em 94.
Lula, porém, não está mentindo. O que vem depois de 4 de outubro é chumbo grosso. O governo vai lançar um pacote de medidas extremamente impopulares em nome da manutenção da estabilidade econômica, ameaçada pela crise financeira internacional, cujos efeitos já vêm sendo sentidos no Brasil há várias semanas.
O pacote do governo, assim como aconteceu no final do ano passado, com a eclosão da crise asiática, estará centrado mais uma vez na redução de gastos e do endividamento público.
Qualquer dona de casa sabe que não pode gastar mais do que tem, assim como não podemos entrar todo mês no cheque especial e comprometer nossos salários com compras feitas pelo cartão de crédito. Chega um momento em que a casa cai.
Os governos brasileiros são mestres em gastar mais do que arrecadam e a fórmula para reduzir o déficit acaba sendo a mesma de sempre: aumento de impostos, criação de taxas como a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira, a CPMF, que tende a ser permanente. As medidas sempre acabam pesando sobre o contribuinte, sobre o consumidor, e quase nunca sobre os responsáveis pelo descontrole das contas públicas.
Um eventual governo do PT, em face da atual realidade, também teria que adotar medidas rigorosas, como as que fatalmente virão por aí e levarão o País a uma brutal recessão no ano que vem.
Em novembro de 1986, quando o Plano Cruzado já fazia água e o congelamento de preços não era mais sustentável, o governo empurrou a crise com a barriga e os aliados do então presidente José Sarney deram um banho nas urnas. Logo depois das eleições, o governo anunciou o fim do congelamento e uma série de medidas adotadas exatamente para conter o déficit público, mas que novamente se resumiram a uma sangria no bolso do contribuinte e do consumidor.
O filme parece se repetir agora. Fernando Henrique Cardoso deverá ser facilmente reeleito, graças à aparente estabilidade econômica do País. Para evitar qualquer turbulência até 4 de outubro, o governo tentou tapar o sol com a peneira, procurando esconder do eleitor não só a dimensão da crise, mas também os remédios que adotará para enfrentá-la a partir do dia 5.
Fernando Henrique, porém, ao convidar a oposição para conversar e descobrir saídas para os problemas, também deu indícios de que Lula está certo quando alerta a população e o eleitorado sobre o que acontecerá depois das eleições.
E salve-se quem puder.
- KIDO GUERRA é jornalista em Brasília


