O alto índice de criminalidade suscita medo, insegurança e sensação de impotência na população. Só no Paraná, de acordo com dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública, em 2008 foram cometidos 29.645 roubos e 2.831 homicídios dolosos.

E o que fazer para reduzir esses índices e garantir segurança à população? Muito se fala na implantação de políticas públicas e de ações de combate à violência, mas existe outro fator que pode prevenir ocorrências e aumentar a segurança: a formação adequada dos policiais.

Sobre o assunto, a FOLHA conversou com o professor universitário e tenente-coronel da Polícia Militar de Santa Catarina, Giovani de Paula, que esteve em Londrina para participar de um debate sobre Segurança Pública promovido pela PUCPR.

Segundo ele, a formação policial é satisfatória, mas muita coisa poderia ser diferente. ''Eliminar as práticas de submissão pode trazer resultados positivos.''

De modo geral, como melhorar a formação do policial no Brasil?
A formação é satisfatória. Ainda existem uma série de resistências em relação ao emprego das forças policiais. Muita coisa poderia ser diferente, pois não basta reformular os currículos, é preciso mudanças de atitudes no processo formativo. É necessário aliar instrutores e professores com qualificação e base humanista, com as mudanças de paradigmas nas relações que se estabelecem no processo ensino-aprendizagem. Buscar a eliminação de relações de poder e das práticas de submissão pode trazer resultados muito positivos.

Como a formação da polícia pode influenciar nas ações?
A formação policial é a base para um bom atendimento à comunidade. A complexidade das ações do profissional que atua na segurança pública exige uma formação que abranja diversas áreas do conhecimento humano, com destaque para o conhecimento jurídico, além do tático e do operacional. Investir na formação é investir na prevenção e na qualidade dos serviços prestados. As vantagens num ensino de excelência vão da questão do respeito aos direitos dos cidadãos, à qualificação dos atendimentos e à ampliação das possibilidades de resolução pacífica dos conflitos.

Há investimento por parte do governo?
Os governos investem, mas ainda é pouco diante dos novos conflitos, como por exemplo a questão dos crimes de pirataria, lavagem de dinheiro, violências de gênero, ações de mediação envolvendo movimentos sociais, crimes cibernéticos, dentre outros.

O policial bem preparado pode colaborar na redução do índice de criminalidade?
Certamente pode. O preparo policial que dê primazia às práticas de prevenção repercute na redução das formas de violência e dos índices de criminalidade. Uma formação pautada na lógica da paz, e não na da guerra ao crime, permite ações policiais que vão além do problema criminal em si, voltando-se para possibilidades de intervenção sobre problemas de outra dimensão, mas que repercutem na área da segurança pública, como infraestrutura urbana, saúde, educação, moradia, lazer.

Como o senhor avalia a formação dos policiais no Paraná?
A polícia do Paraná tem uma forte tradição no sentido do seu alto grau de profissionalismo e padrão de atendimento ao público. Mas a formação tem seguido a mesma orientação dos demais estados da federação. Em todo o país ainda há muito a ser feito para a consolidação de uma polícia verdadeiramente democrática e cidadã. Hoje não há um estado que possa servir de modelo, pois cada qual tem as suas especificidades. Depende muito das peculiaridades regionais e locais. O nível de preparo, a capacitação e o tipo de operação das polícias tem variado muito.

Como deve acontecer a abordagem policial?
Depende do contexto da operação. Numa área conflagrada a abordagem deverá ser mais cautelosa e com um poder de enfrentamento bem maior. A intervenção é mais dinâmica e rápida. Em operações como blitz, varredura, barreiras policiais, faz-se necessário armamentos e viaturas. Numa situação de mera suspeição, as cautelas recaem no sentido de não expor o cidadão com revistas desnecessárias ou excessos na forma de interpelação. De qualquer modo, há que se prevalecer, em qualquer situação, o respeito às liberdades e aos direitos, e garantias fundamentais do cidadão.

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