''Sorria, você está sendo filmado''. Quem nunca se deparou com esse aviso? Esta é uma das formas de controle a que estamos submetidos, porém, existem muitas outras. Sonia Regina Vargas Mansano, doutora em psicologia clínica e professora da UEL, escreveu um livro sobre o assunto e nesta entrevista explica quais são essas outras formas e como funcionam.

A quais controles estamos submetidos?
O primeiro é a vigilância disseminada, os vários dispositivos de controle voltados à segurança. Desde os equipamentos, passando por palavras de ordem que se tornaram corriqueiras e nos convocam à vigilância até atitudes que acionam em cada um de nós uma atenção dirigida para situações julgadas como estranhas e perigosas. Em segundo, o controle que acontece por estimulação, a publicidade: ele incide sobre a sexualidade, a beleza, a profissionalização, o tempo livre e a segurança. Por fim, o controle de riscos: ele envolve a identificação de eventos futuros que tragam algum dano ou sofrimento ao sujeito. Por meio do controle, pretende-se evitar seus efeitos nocivos, neutralizando-os de diferentes maneiras.

De onde parte esse controle?
O diferencial de nosso tempo é que o controle acontece de maneira descentralizada. Somos vigiados ao mesmo tempo em que aceitamos vigiar aqueles que estão ao nosso lado. Por vezes, sequer percebemos essa atitude, visto que ela está cada vez mais se consolidando como um traço subjetivo bastante naturalizado. É claro que os aparatos do Estado realizam grande parte desse controle valendo-se de instrumentos tecnológicos como as câmeras instaladas em locais públicos e também da ação policial. A iniciativa privada também começou a oferecer esse tipo de serviço, fazendo a segurança de prédios comerciais, residências e indivíduos.

Qual é o objetivo e as consequências desse controle todo?
Grande parte desse controle é realizada em nome da segurança pública. As consequências disso são diversas: uma população cada vez mais endividada, o medo está generalizado, a sensação de insegurança cresce. Daí a importância de destacar o quanto é necessário pensar nos modos de vida que construímos a cada vez que acolhemos essa estimulação.

Somos coniventes de alguma maneira?
Penso que a questão pode ser pensada em termos de desejo. Em larga medida desejamos as formas de controle e aderimos a ela, mesmo sem parar para pensar no tipo de vida que estamos ajudando a construir para nós mesmos e para aqueles que nos cercam. A preocupação com a segurança, muito desejada e até exigida, pode diminuir ou mesmo inviabilizar o contato social, comprometendo ainda mais o exercício de uma vida pública e o contato com a diferença.

É reversível esse processo?
Em toda organização social temos o exercício tanto do poder quanto da resistência. As possibilidades de escapar ao controle, quando assim for interessante e necessário, são diversas e isso vai desde a recusa a uma forma de controle proposta até a desconsideração de sua existência.

Há algum ponto positivo nesse controle?
Mais do que buscar pontos positivos ou negativos, a questão está em analisar que tipo de vida é possível construir a cada vez que nos conectamos a um dispositivo de controle. É inegável, por exemplo, o quanto os avanços tecnológicos contribuíram para melhorar a qualidade de vida da população.

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