Segurança e qualidade de vida
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de abril de 1997
Abílio Medeiros Júnior 
O assunto é polêmico e o tema, espinhoso. Mas, nem por isso, poderíamos deixar de observar os equívocos e os perigos que começam a predominar no tratamento que vem sendo dado às denúncias contra policiais militares. Em meio a uma avalanche de imagens e acusações - na grande maioria incontestáveis - parece faltar um elemento fundamental: o discernimento. A generalização é o grande risco.
A questão precisa ser analisada com sensatez. Afinal, a segurança é um dos principais componentes daquilo que passamos a definir como qualidade de vida.
Questionar a forma como o assunto vem sendo tratado não significa defender os policiais denunciados ou buscar atenuar a punição à qual devem ser submetidos. Pelo contrário, a veracidade das imagens de Diadema nos obriga a tomar iniciativas exemplares e definitivas para que os maus policiais sejam rigorosamente punidos. A expulsão é pouco e a Justiça Comum deve definir o tempo que cada policial envolvido no episódio ficará na cadeia.
O que está faltando, neste momento de ânimos exaltados, é o bom senso de dar à questão apenas a dimensão que lhe cabe. O fato de terem sido mostrados os policiais militares corruptos, violentos e assassinos não significa que a Polícia Militar seja corrupta, violenta e assassina.
Os maus policiais existem, mas são seguramente uma minoria e não podem servir como referência para avaliarmos toda a corporação. E este é o grande equívoco que ronda a polêmica armada no País nas últimas semanas.
Não se pode jogar na mesma vala os policiais violentos e a Polícia Militar. A instituição da PM tem uma história que não pode ser esquecida, principalmente num momento como este. Vale lembrar que a cada dia milhares de policiais desempenham suas atividades com a probidade e honra que o uniforme impõe. Muitos deles têm a dedicação reconhecida como heroísmo pela população. Um exemplo, só para citar Londrina, é o policial militar Roberto Spangenberg, que controla o acesso de crianças ao Colégio Vicente Rijo. Num dos cruzamentos mais perigosos da cidade, ele promove a segurança de maneira desprendida e anônima. Muitas vidas foram e são preservadas naquela esquina pelo trabalho do policial, que merecidamente foi homenageado pela Câmara de Vereadores com o título de Cidadão Honorário de Londrina.
Exemplo teríamos muitos para citar. O trabalho cotidiano do Corpo de Bombeiros, que pertence à Polícia Militar, é heróico. O Siate, outro braço da Polícia Militar, salva vidas todos os dias, sem que isso receba destaque. A PM do Paraná é considerada uma das melhores do País, se não a melhor, pela eficiência no trabalho, por exemplo, contra os sequestradores.
Não se pretende aqui, repito, reduzir a gravidade dos crimes cometidos pelos policiais militares de Diadema, do Rio de Janeiro ou de outros, em casos mais próximos a nós, que participam de quadrilhas ou cometeram violência contra o cidadão comum. Os policiais comprovadamente criminosos devem ser tratados como os bandidos que são, com o agravante de estarem desonrando a farda e a responsabilidade dada a ele para defender a sociedade.
O importante é que a Polícia Militar não deve ser transformada num vilão indefensável, sobre a qual só devem recair críticas. A execreção pública da corporação não cabe, por ser injusta.
O mais coerente seria promovermos um amplo debate sobre o que precisa ser mudado na Polícia Militar, como de resto em todos os outros órgãos de segurança existentes no País. Os problemas existem, na realidade, na base do sistema brasileiro, principalmente como resultado de uma política global que não prioriza como deveria.
As mudamças devem ser promovidas como parte de uma grande reavaliação dos investimentos no setor de segurança - sem que se desvie, é bom ressaltar, da punição aos bandidos fardados. O momento é muito oportuno para trazermos à tona a discussão sobre a importância de uma estrutura policial eficiente. Não só pelos fatos mostrados pela imprensa, como também pela dimensão que a segurança assumiu como item fundamental para definição da qualidade de vida de um país.
A globalização da econômia, que é um passo sem volta, vem colocando o Brasil na linha de frente das fronteiras de investimentos internacionais. Aos grandes grupos industriais, o Brasil oferece como atrativos seu grande mercado e a posição de liderança dentro do bloco do Mercosul. Só que a definição destes investimentos deixou de obedecer apenas critérios mercadológicos. As empresas, cada vez mais, estão em busca de regiões que oferecem níveis de vida elevados para seus executivos e empregados.
E a segurança, no Brasil de hoje, é a grande fronteira a ser dominada. É uma questão de lógica. Sem investir nas estruturas policiais, sem uma revisão profunda dos métodos de preparação e valorização dos homens e mulheres que vão para as ruas proteger a população, jamais teremos como realmente esperar a solução desse drama diário que é a insegurança.
Esta é, portanto, uma questão que supera os limites que vêm sendo colocados e que deveria ser tomado pela sociedade como uma oportunidade rara de o país fazer nascer uma nova realidade. O cidadão comum, empresas entidades e corporações, todos têm a ver com o assunto. As cenas de Diadema e do Rio de Janeiro não são a imagem apenas dos erros, truculências e crimes de policiais militares. Eles são também o retrato dos equívocos da sociedade como um todo, que precisa assumir o seu papel de controladora das rédeas - e não apenas de pagadora de impostos.
Investir no saneamento das estruturas de segurança é melhorar a qualidade de vida e, no curto prazo, garantir a atração de novos investimentos econômicos. Execrar a PM, dentro deste contexto, é perder o foco, a objetividade e a oportunidade.


