Uma das funções do major aviador Romualdo Melo é investigar acidentes aéreos ocorridos na Região Sul do País para o Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Seripa V), de Canoas (RS). Foi para verificar as circunstâncias do desastre que matou três pessoas no dia 28 de janeiro na Zona Rural que o oficial da Aeronáutica veio para Londrina.
Também é responsabilidade dele avaliar candidatos e reavaliar os pilotos já credenciados. Um trabalho essencial num momento que o País enfrenta falta crônica de mão de obra especializada no setor, o que, segundo Melo, tem apressado a contratação de profissionais com menos experiência.
Embora não seja possível fazer uma relação direta com esse problema, houve no Brasil um aumento assustador do número de acidentes na última década: de 57 em 2000 para 102 em 2010 (ver quadro). Dados da Associação Brasileira de Aviação Geral (Adag) indicam que o País enfrenta hoje uma carência anual de cem novos pilotos. Por isso, a própria Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) passou a ofertar bolsas para custear cursos de pilotagem.
No entanto, outras saídas temerárias, segundo o major, têm sido colocadas em prática. Uma delas é a redução da exigência de um mínimo de 1,5 mil horas de voo de treinamento para apenas 250 horas.
Sobre o acidente registrado em Londrina, o major observou que o desastre não teria relação com a falta de experiência do piloto Gleiton Zanetta Borba, de 33 anos. As primeiras análises indicam que Borba teria perdido o controle do bimotor e entrado em ''parafuso''. A aeronave chocou-se contra o solo, matando Borba, o co-piloto Ronaldo de Souza Pescador, 33, e o auxiliar Oséias Júnior Pereira Sena, 18.
Em que consiste a avaliação dos profissionais e dos candidatos a piloto?
A habilitação de piloto tem validade anual. Portanto, todo ano eles são reavaliados pela Anac. É escalado um checador que submete os pilotos a testes para verificar a proficiência na pilotagem. Se ele apresentar qualquer problema retoma os voos de instrução e faz mais alguns voos para depois refazer o ''check'' teórico e prático.
Qual sua avaliação sobre a formação de pilotos no Brasil?
Se existe déficit de pilotos é possível começar a pensar como está a qualidade na formação de novos pilotos. Com a falta de profissionais no mercado, os instrutores de aeroclube querem voar aeronaves maiores e partem para as grandes companhias aéreas. Isso faz com que a rotatividade seja muito grande nos aeroclubes. Então, dizer que os instrutores de aeroclubes são experientes seria uma inverdade. Mas, de maneira geral, a formação tem sido adequada, a Anac tem feito a fiscalização possível e as avaliações têm sido a contento.
Mas a falta de pilotos força a entrada de novatos sem a formação adequada no mercado de trabalho?
Tem diminuído bastante o número de horas exigidas para empregar pilotos. Começou-se com 1,5 mil horas, passou para mil, caiu para 800 e chegou até a 250 horas. Mas, agora, acredito que estão retomando a qualidade necessária.
O aumento no número de acidentes nos anos 2000 pode ter relação com deficiências na formação de pilotos?
Acredito que onde há uma fiscalização adequada, qualquer tipo de índice é menor. Com mais fiscalização as coisas tendem a ser melhoradas, tanto na instrução quanto na atividade aérea em geral. Além disso, não se permite que um piloto que não esteja habilitado ou sem inspeção de saúde esteja atuando. Hoje tem piloto sem carteira estrangeira pilotando aeronaves estrangeiras. Acredito que o órgão fiscalizador corra atrás disso, mas a gama é muito grande e é um trabalho difícil de ser executado.
Como o senhor analisa o aumento do número de acidentes?
Não tenho dados para dizer se os acidentes têm relação com a falta de pilotos ou com a instrução. O que sabemos, por exemplo, é que a contratação de pilotos estrangeiros para suprir a demanda nacional tem que ser analisada com bastante critério. Existe muita gente querendo voar, mas o custo para formação é muito alto. A Anac já verificou isso e disponibiliza bolsas para pagar os cursos de avião.
Mas o panorama é preocupante, já que existe uma perspectiva de aumento do tráfego áereo nos próximos anos?
Anteriormente à criação da Anac, em 2005, os Serviços Regionais de Aviação Civil (Seracs) tinham uma estrutura muito pequena e nem tudo que ocorria era notificado. Com a Anac e a transferência da investigação para a Aeronáutica foram criados os Seripas. Com isso, muita coisa que não era comunicada hoje é. Portanto, é possível dizer que o número de ocorrências aumentou porque a fiscalização é maior.
Sobre o acidente registrado em Londrina, o que já foi possível apurar?
Nesta primeira fase o trabalho é de coleta de informações, envolvendo os aspectos operacional, psicológico, médico e material. Preliminarmente, digo que não há indícios de falha no motor. A parte mecânica está sendo verificada e até agora não encontramos nada que possa ter contribuído para o acidente. Sobre a parte médica dependemos dos laudos do Instituto Médico Legal (IML). Nos sobrou basicamente a parte operacional. Temos informação que os pilotos teriam feito uma decolagem para treinamento com vistas à avaliação de proficiência para conseguir a renovação da habilitação de piloto. As manobras executadas no tipo de voo de avaliação são um pouco mais arriscadas porque o piloto tem que demonstrar o seu nível de proficiência para ser aprovado. É possível, pela análise dos destroços, que o piloto tenha perdido o controle da aeronave durante uma destas manobras.
Mas que tipo de falha teria ocorrido?
O que mais nos parece é que tenha ocorrido uma falha operacional - uma perda de controle em voo. Há algumas manobras em que se coloca a aeronave muito próxima de sair do controle e entrar, inadvertidamente, em parafuso. Os pilotos de aeroclubes e civis não têm treinamento nem aeronave para saírem dessa situação descontrolada de voo. Talvez tenhamos que fazer uma recomendação para modificar o treinamento e dar mais segurança para aeroclubes e pilotos.

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