Que a tecnologia facilita muito o dia a dia não há a menor dúvida. Mas também não devemos nos esquecer que, se mal empregada, o transtorno será imenso. No mês passado a cantora Cláudia Leitte viu fotos suas usadas em um anúncio de acompanhantes e recebeu ameaças de morte, que não pouparam nem o filho dela.
O delegado Demetrius Gonzaga de Oliveira é o responsável pelo Núcleo de Combate aos Cibercrimes (Nuciber) do Paraná, que é a unidade especializada em investigação de crimes complexos que envolvem o emprego da tecnologia.
Nesta entrevista, ele explica quais são os delitos mais comuns e alerta para os cuidados que cada um deve tomar para não transformar-se na próxima vítima. ''Embora façamos orientações frequentemente, algumas pessoas insistem em presumir que (o crime) jamais vai acontecer com elas. Em virtude disso, não só crimes virtuais, mas também golpes como o do bilhete ainda acontecem'', destaca.
Quais crimes relacionados ao uso de tecnologia ocorrem com mais frequência no Paraná?
Em primeiro lugar os crimes contra o patrimônio, que se traduz no desvio de conta corrente. Representa quase 60% dos casos. Em segundo lugar temos muitos crimes de estelionato. As pessoas acreditam em empresas ou pessoas que não conhecem, depositam antecipadamente valores e acabam tendo prejuízo porque não recebem a mercadoria. Temos também crimes contra a honra, que são a calúnia, a injúria e a difamação. Não podemos esquecer um número significativo de casos de ameaça.
É possível rastrear criminosos cibernéticos?
Com certeza. O que precisamos é que a vítima, quando for atingida por um crime dessa natureza, reúna todas as provas (impressão de e-mails ou páginas de sites) e procure a autoridade policial mais próxima para lavratura do boletim de ocorrência.
Temos a estrutura adequada para fazer a identificação e o rastreamento?
Há uma distância significativa entre a realidade e o que a gente vê no cinema. Evidentemente nos Estados Unidos não só a legislação é bastante avançada como também os recursos tecnológicos, o desenvolvimento de softwares é diferente do que no Brasil.
Temos muita gente inteligente, competente, mas a nossa realidade é distinta. Mais importante do que um equipamento avançado é o conhecimento, a inteligência e o interesse em analisar cada um desses dados e saber detectar os indícios e as pistas que podem levar aos criminosos.
Se nós compararmos a nossa legislação com a dos Estados Unidos há uma defasagem muito grande. Eles têm uma legislação muito antiga, elaborada e que já prevê esses casos. Eu chamo a atenção de vítimas que procuram contratar detetives que se dizem especialistas em crimes de internet porque eles podem utilizar ferramentas desenvolvidas para a legislação de fora do País. Achando que vai poder agir muito mais rápido do que a própria Justiça, eles acabam praticando um crime e comprometem toda a situação. Nenhuma investigação pode ser efetivada sem a apreciação do Ministério Público e sem autorização do Judiciário.
E como conter os crimes virtuais? Podemos dizer que as pessoas facilitam as ações dos criminosos?
Sempre existe uma parcela de contribuição das vítimas. Embora façamos orientações frequentemente, algumas pessoas insistem em presumir que jamais vai acontecer com elas. Em virtude disso, não só crimes virtuais mas também golpes como o do bilhete ainda acontecem.
O que fazer para não ser a próxima vítima?
Com relação aos crimes contra o patrimônio, como o desvio de dinheiro de conta corrente, a pessoa deve instalar pacotes de segurança no computador, não só antivírus. Em se tratando de negociação com cartão de crédito ou consultas a conta bancária, evite fazer acesso de lan houses, hotéis - quaisquer locais onde os computadores sejam públicos.
Na questão de estelionato é sempre importante as pessoas verificarem a procedência, a idoneidade, a credibilidade de uma empresa no mercado. Para isso a própria internet oferece vários recursos. Tome muito cuidado para fazer a negociação em véspera de feriado, quando o acionamento dos órgãos policiais e judiciários é mais complicado.
Nos crimes contra a honra, a grande parcela acontece entre adolescentes, por isso recomendamos que os pais procurem acompanhar a evolução da tecnologia, os recursos disponíveis. Os pais e mães devem estar ao lado de seus filhos, orientando, para que amanhã ou depois não sejam surpreendidos. Não disponibilize fotos, endereço, não informe os locais de lazer, de trabalho.
E os pais podem ser responsabilizados por atos cometidos por filhos menores de idade?
Na esfera criminal os pais não respondem. Adolescentes respondem a medidas socioeducativas, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente. Os pais podem ser responsabilizados na esfera cível, quando é movida uma ação de indenização por danos morais ou por qualquer tipo de prejuízo que esses adolescentes venham a causar contra terceiros.

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