Em suas recentes campanhas, os candidatos à prefeitura de Londrina hastearam a bandeira: uma vez eleitos, criariam a Guarda Municipal. Com a função de fiscalizar e manter a ordem na cidade, a Guarda aumentaria a segurança de uma população farta de um noticiário policial movimentado.

Para o coronel da reserva e diretor de planejamento estratégico da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (Adesg), Carmelo Zapalá Giufrida, a segurança não passa necessariamente por mais policiais, viaturas e armamentos. Segundo ele, a Guarda Municipal deve contar com agentes de integração, com formação antropológica, sociológica e psicológica.

Qual o efeito da criação de uma Guarda Municipal para Londrina?
Seria ingênuo pensarmos que uma Guarda Municipal resolveria o problema da segurança na cidade, que é muito amplo e passa necessariamente pela não-formação adequada dos policiais, pela falta de equipamentos, por um processo judiciário demorado e um sistema prisional que não repara ninguém. Nesse contexto todo, a Guarda Municipal vem se inserir como mais uma ferramenta.

Qual sistema defende, para a Guarda Municipal?
Em 1969 tivemos, em decorrência da situação do governo militar, as polícias militares inseridas no sistema de Segurança Pública. Esse tipo de matriz, que priorizava a atividade de segurança do Estado, recebeu uma formação militar e passou a atuar com uma ideologia militar. Acredito, nas guardas municipais, num sistema de hierarquia, de disciplina, de poder coordenar as atividades e minimizar a corrupção.

A filosofia deve ser militar?
Não, não pode ser. O militar trabalha em termos de inimigo, de combate, de cerco, de vitória, de prisioneiros, que é o que acontece atualmente em decorrência de nossa formação terceiro-mundista, com o Estado sendo o grande protetor da sociedade de uma maneira muito paternalista e ruim, em que a sociedade passa a ser vista como incapaz ou inimiga do Estado. Na década de 1970, por exemplo, a Polícia Militar procurava quem eram os inimigos do Estado. Com a Constituição de 1988, as atividades se voltaram à proteção do cidadão, só que as estruturas dos corpos de ensino e a prática, na passagem do serviço no dia-a-dia, não refletem isso ainda. Não se trata de uma crítica, num sistema tão desorganizado como o que temos.

Nesse sentido, quais os cuidados que devemos ter na implantação de uma Guarda Municipal?
A Guarda Municipal deve ter uma filosofia própria. A formação, que é a atitude do policial, não deve ser a de um repressor, aquele que só usa o conhecimento legal. A Guarda deve ser complementar ao sistema educativo. Quando um indivíduo comete um pequeno desvio, o guarda estaria, nesse sistema, preparado para, como educador e um agente de integração, fazer a correção que a oportunidade oferece. A Guarda precisa ter aceitabilidade, uma aceitação social.

Temos o exemplo de Diadema (SP), que conjuga essa formação da Guarda com a Secretaria de Educação. Seria esse o caminho?
Exato. A exemplo de Diadema, a Guarda deve ter vínculos muito fortes com a Secretaria de Educação tanto na formação quanto no acompanhamento. O agente municipal não pode ser mais da mesma coisa.

Sempre que a insegurança toma o noticiário, se fala em mais soldados, mais viaturas, mais armamentos...
Essa matriz está errada, ela vai cansando e não produz nada. Precisamos urgentemente fazer alguma coisa diferente. O guarda civil precisa ter formação antropológica, sociológica e psicológica para entender qual a função dele dentro do sistema e como ele pode ajudar na correção. Vemos, na Lei Orgânica das Guardas Municipais, a formação em até 90 dias.

Como deve ser essa formação?
Temos uma preocupação tão grande em formar advogados, engenheiros e médicos e em relação à segurança tudo parece ser de pouca importância, de segunda linha. É preciso lembrar que esse profissional ''treinado'' em 90 dias vai entrar numa área muito sensível, lidando com correção e complementação de uma educação que o Estado falhou. O sistema é muito amplo. Defendo uma formação tão aprimorada quanto à de um médico, engenheiro, pois esses profissionais vão lidar com a integridade do todo social.

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