Segundo turno em Curitiba
Logo na noite de 1º de outubro pôde-se ouvir análises das eleições impregnadas de juízos axiomáticos. O normativismo, isto é, a análise fundada no dever ser, com o uso de melhor, pior etc., foi quase hegemônica. Essas posturas, em verdade, são muito mais uma continuidade das campanhas do que análises do pleito.
Certos fenômenos importantes foram completamente negligenciados por essas análises. Em primeiro lugar, Curitiba é, por óbvio, a cidade paranaense com o maior número de funcionários públicos estaduais. Assim, o crescente descontentamento destes com o governo do Estado foi refletido nas eleições para o Executivo municipal, uma vez que o candidato do PFL, o partido do governador, adota exatamente as mesmas políticas de Lerner. É o mesmo fardo eleitoral suportado por Geraldo Alckimin (SP), que está fora do segundo turno, e Tarso Genro (RS), que irá disputar um supreendente segundo turno com o PDT.
Ainda em relação ao grupo de Cassio Taniguchi, não podemos esquecer o desgaste provocado pela queda de Rafael Greca, ex-prefeito do mesmo clã. Deve-se lembrar que foi o procurador federal Luiz Francisco, possuidor de uma enorme aceitação de mídia e público, quem mais acusou o ex-prefeito e ex-ministro.
Há, também, outro fato que indiretamente arranhou a imagem construída ao longo de quase uma década pelos líderes do PFL paranaense: o desastre ecológico acontecido no Paraná, que eivou a imagem do Estado e remeteu responsabilidades ao grupo que comanda a capital ecológica do País. Segundo pesquisa do Vox Populi, o assunto que mais interessou aos brasileiros durante julho, mês em que as campanhas realmente começaram, foi a referida agressão, com 31% de interesse.
Sem levar em conta o grupo ao qual pertence o chefe do Executivo local, os pardais eletrônicos, que se multiplicaram por Curitiba (fiscalização de tráfego de veículos), mais o aumento das áreas de estacionamento Estar e as discussões em torno do IPTU foram, com efeito, as variáveis mais fortes para o desgaste individual do prefeito. Maquiavel já dizia, em 1503, que o eleitor esquece mais facilmente do governante que mandou matar sua mãe do que aquele que diminui seu patrimônio através de tributos.
De outra parte, observa-se que o PT avançou eleitoralmente. Terminou o primeiro turno à frente em Londrina e Maringá, ganhou e eleição em Ponta Grossa e ameaça a hegemonia do PFL em Curitiba. Até agora, no plano nacional, o partido saltou de 114 para 171 prefeituras. Entretanto, alardes que soam como mitos, por exemplo o de que o socialismo avançará ou que a esquerda governará o País a partir de 2002 carecem de seriedade.
Primeiro porque o PT não é o mesmo partido de 1979. A expulsão de tendências radicais, nos anos 90, demonstra maturidade do partido. O candidato do PT em Curitiba é Ângelo Vanhoni, considerado moderado no PT, que derrotou nas prévias do partido o deputado federal Dr. Rosinha (mais radical). É fácil observar que Vanhoni retrata fielmente o PT de 2000 (sua tendência é majoritária na direção e nas bases do partido de Lula).
Fatos como a maior abertura do PT para aliança e outros que demonstram o partido surgido no ABC paulista mudaram o discurso. Ora, o mesmo PT curitibano que hoje se alia com o PMDB e recebe apoio do PSDB, dez anos atrás fazia campanha para o voto nulo nas eleições do segundo turno estadual, com o lema nem Martinez, nem Requião. É fortemente visível a mudança de discursos e postura do Partido dos Trabalhadores.
Esses fenômenos não são exclusividades curitibanos, nem brasileiros, tampouco inéditos. Já na década de 70, o cientista político neomarxista Adam Przeworski analisava essa encruzilhada vivida por todos os partidos dos trabalhadores do mundo: ampliar o eleitorado ou permanecer com o mesmo discurso dirigido para suas bases tradicionais?
Przeworski demonstrou com propriedade que os partidos trabalhistas, em sua maioria, escolheram a primeira opção, resultando em vitórias eleitorais, mas descaracterizando, em grande medida, esses partidos como socialistas. Ainda quanto ao discurso, Anthony Downs demonstrou, na década de 60, que nas eleições majoritárias os candidatos tendem a aproximar seus discursos do eleitor mediano, fato que consequentemente leva a uma proximidade muito grandes dos discursos. É o que se verifica nas grandes capitais.
Afora as questões partidárias, o candidato petista em Curitiba capitalizou a queda de Cassio Taniguchi. Vanhoni tem uma ampla aceitação na intelectualidade (em virtude da Lei Vanhoni de fomento à cultura) e nos últimos meses demonstrou perspicácia política ao trazer a CPI Nacional do Narcotráfico (que atingiu estrondosa repercussão) para a cidade de Curitiba. Capitalizou como poucos o clamor nacional anti-violência, tema que desde o começo do ano é a principal preocupação do eleitorado nacional.
Enfim, as variáveis diretas e indiretas que formaram a racionalidade do eleitor curitibano são mais complexas do que o senso comum normativista prediz. O que se pode afirmar de pronto, sem medo de falsa representação da realidade, é que Curitiba não é uma ilha política isolada (com alguns já pensaram). A estrutra da racionalidade do eleitor curitibano é formada por diversos fatores, fenômenos constantes e variáveis, que podem ser melhor analisado na proporção inversa da rigidez dogmática, seja de direito ou esquerda.
- RAFAEL THOMAZ FAVETTI é advogado e cientista político em Curitiba





