Segundo semestre pode ser mais difícil
Há indicadores ainda tímidos, mas não desprezíveis, sinalizando um segundo semestre mais difícil para a política econômica. A necessidade de contrapor os efeitos de novos cenários (entre eles uma realidade adversa para os preços agrícolas lá fora, reduzindo a receita do setor), vai exigir atitude firme do governo. Uma delas é mudar o receituário inflexivelmente ortodoxo a que tem submetido o Banco Central, ao tentar controlar a inflação usando instrumento de política monetária, via taxas de juros. Outra atitude é conviver com a desconfortável tendência de redução do superávit primário que tem rebate no social.
Uma coisa é certa: não poderá, a equipe econômica, prescindir de uma política mais branda nos juros e no câmbio, variáveis que exercem influência direta sobre o crescimento econômico e geração de emprego. E terá de mexer urgentemente na política fiscal, reduzindo as demandas por gastos da máquina, setor em que o governo tem se mostrado impotente. Outra tarefa é estancar os gastos com os serviços da dívida (juros pagos pelo BC) que têm aumentado de absurdos 8,5% do PIB em 2002 para acintosos 9,5% projetados para este ano.
Enfim, diante do que está por vir, a partir de agosto/setembro, o governo terá de conferir mais consistência à sua política macroeconômica e mudar a forma como vem administrando as três variáveis cruciais: taxas de juros, preços de tarifas públicas e paridade cambial.
E por que essa prevenção? Em primeiro lugar porque a política recessiva não dá sinais de reversão; há setores amargando crise de liquidez desde meados do ano passado. O que se tem comemorado nas últimas semanas não são prenúncios da retomada de crescimento; são bolhas de aquecimento de um ou outro setor, isoladamente. Neste segunda-feira, por exemplo, o comércio vai comemorar as boas vendas de bacalhau e chocolate.
Mas isto não expressa crescimento da demanda agregada. São dados que, sequer, vão transparecer nos índices que medem o comportamento mensal da economia. Além do mais, sugerem efêmero deslocamento de consumo. As famílias que não puderam viajar, pelo menos gastaram mais no cardápio.
O primeiro alerta da aproximação de um período de vacas magras vem do próprio governo: o minsitro do Desenvolvimento, Luiz Furlan prevê uma redução dos preços das commodities agrícolas, a começar do complexo soja. A partir de setembro e outubro, quando a safra norte-americana entrar, haverá uma volta ao ''leito original'', alerta. O ministro quer dizer que os motivos que sustentam altos os preços da soja podem sair de cena. Da mesma forma, podem deixar de pesar a nosso favor fatores como ''vaca louca'', e ''gripe'' do frango, que têm ajudado a exportação de carnes. Sem esses ''acidentes de percurso'' - como diz o ministro - os preços podem voltar à realidade competitiva e, então, o País perde receita e o agronegócio deixa de garantir a balança comercial.
Mas isto pode ser apenas a ponta do iceberg. Pode haver fuga de capital, por conta do risco Brasil, que aumenta à medida que o governo vai mal, como agora.





