Segredo é o dinheiro circular - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 28 de janeiro de 1999
Walmor Maccarini 
Se o montante da moeda circulante, no Brasil - com algumas variações - tem sido sempre o mesmo, por que então tivemos períodos de grande desenvolvimento e outros de estagnação? A resposta é que em certas épocas o dinheiro circulou e em outras não. Neste momento amargo que vivemos, o que se ouve é que ninguém tem dinheiro. Certo, mas na verdade nunca ninguém teve dinheiro, em parte alguma do mundo e em tempo nenhum, porque se todos o desejassem tê-lo em mãos, na medida do seu patrimônio físico e da conta bancária, não haveria moeda para todos. Dinheiro não se tem, dinheiro se usa. E dinheiro só se usa se ele circula.
Todo o dinheiro do Brasil está, neste momento, dentro do Brasil, mas está parado; então ele perde todo o seu poder. A existência ou não de inflação não altera este princípio, porque já vivemos o período de maior crescimento do Brasil - que foi no governo de Juscelino Kubitschek, o JK - com inflação totalmente descontrolada. É que a moeda circulava, e o País crescia. Comprava-se e vendia-se, os negócios prosperavam, o Brasil era um canteiro de obras, o panorama das cidades modificava-se velozmente. JK construía hidrelétricas - necessárias, porque nos faltava energia para tocar as fábricas emergentes - edificava Brasília, dava empregos, trazia para o País a indústria automobilística. Era a grande emancipação, porque com ela instalavam-se também os negócios afins. O lema de JK - 50 anos em 5 - concretizava-se. Não era um sonho, era realidade. Por que? Porque o dinheiro corria livre e solto. O que era mil passava pelas mãos de 10 num único dia e virava 10 mil. JK não interferia, apenas deixava a Nação fluir, fazer-se sozinha.
FHC, quando assumiu, chegou a arrogar-se um novo Juscelino. Mas logo começou a fazer tudo diferente: combateu a inflação mas esqueceu de voltar-se para o desenvolvimento. Ordenou aos bancos que elevassem os juros, para que ninguém gastasse o seu real. Foi um JK às avessas. Deu no que deu. Muitos o advertiram, mas ele não tinha a visão iluminada de um JK. Olhava o Brasil como quem olha o próprio umbigo.
FHC começou muito elogiado, porque acreditava-se que mudaria logo sua política de conter o dinheiro, mas não mudou. E ainda ontem, quando o dólar chegou a R$ 1,96, o que se ouviu? Que o governo quer de novo aumentar a taxa de juros. Então não adianta. Fôssemos um regime parlamentarista e FHC já estaria de chinelas em sua fazenda...
Se o governo teima em não mudar o rumo do barco quando ele navega na direção do precipício, então é preciso mudar o barqueiro...
Só com o dinheiro circulando em ritmo normal é que este Brasil se salvará. É só olhar para o exemplo dos países desenvolvidos. Nos Estados Unidos - o nosso macro exemplo - o dinheiro sempre circulou velozmente, e nestes anos dourados de Bill Clinton, tem girado ainda mais veloz, por isso que a nação americana é toda sorrisos... Interessante que FHC é amigo do homem, foi recebido por ele em sua própria residência, mas não aprende. Pedro Malan, que mora em Washington (sua família reside lá), também vê e não alcança.
Uma desculpa é sempre dizer que Brasil e EUA são realidades diferentes. É, lá eles fizeram a realidade diferente. Eles são mais ricos e os cidadãos mais patriotas. Esta a diferença, mas na essência as pessoas são iguais no mundo inteiro: caminham, usam automóvel, computador, têm que morar, estudam, buscam emprego, trabalham, sentem fome, frio, calor, dor de barriga, ficam doentes, vão ao mercado, têm que se alimentar e tratar da saúde, da educação dos filhos, enfrentam sol e chuva, vivem emoções, amam, se apaixonam, sentem ciúmes, se casam, fazem sexo, se separam, vão aos bares, bebem cerveja (a diferença é que lá é beer)...
Lá, como aqui as pessoas vão aos bancos fazer empréstimo e financiamento, mas a juros de 3% ao ano... Lá Bill Clinton não tem medo que o seu dólar circule. Aqui FHC teme que as pessoas gastem o seu real. Teme que, com juros baixos, todos corram aos bancos para emprestar dinheiro e comprar casa, carro, geladeira, aparelho de som, móveis novos, roupas, sapatos. Teme que com dinheiro barato na mão as pessoas o gastem... Ignora, na sua visão de intelectual e sociólogo, que o dinheiro foi feito para ser gasto, e que se o cidadão o gasta é porque está investindo em algo que vai melhorar sua vida e de seus familiares, vai melhorar sua saúde, seu bem-estar, seu ambiente de trabalho e moradia, que ao comprar aciona o comércio, que de sua vez aciona a fábrica, que aciona o fornecedor de matéria-prima, todo esse giro promovendo o emprego, que gera mais dinheiro na mão do trabalhador, para ele gastar mais, e nessa roda viva o governo arrecadando mais imposto, que gera mais obras, que fazem o País melhor de se viver, obras que geram empregos... É a reação em cadeia, e o resultado é a explosão desenvolvimentista.
Teme-se que FHC e sua equipe econômica continuem fazendo bobagens. A sequenciação delas já está anunciada: mais alta de juros, para conter a inflação, como se a elevação do custo do dinheiro não se incorporasse à inflação! Se o preço do dinheiro (que no Brasil não é um meio, mas mercadoria) é de 13% ao mês para quem contraiu o vírus do cheque especial, então a inflação para quem se utilizar dele será de 13% ao mês... Se compramos um bem financiado com juro de 7% ao mês, temos uma sobrecarga inflacionária, em nosso orçamento, de 7% ao mês! Então, que contenção de inflação é esta? Que inflação-zero é esta apregoada no Brasil? Inflação-zero (ou quase), como nos EUA por exemplo, é quando ela é de 3% ao ano, e o dinheiro do banco, do financiamento dos grandes negócios e das compras a prazo no comércio custa igualmente 3% ao ano. Elementar. Qualquer um entende. Menos FHC e seus sábios...


