SEDUÇÃO AMERICANA - Emprego nos EUA atrai moradores de Ortigueira
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sábado, 23 de agosto de 2003
Lúcio Flávio Moura<br>Reportagem Local 
Ortigueira Poeira e ladeira, homens de chapéu portando cigarros de palha, carroças, secos e molhados que vendem fiado, ritmo lento e cumprimentos hospitaleiros.
Nada mais brasileira que a paisagem de Ortigueira (113 km ao sul de Apucarana), um dos portais dos Campos Gerais, o município paranaense que segura a lanterna no campeonato do desenvolvimento humano no Estado.
A exemplo de Reserva, Telêmaco Borba e Imbaú, vizinhos ao Sul, os ortigueirenses aprenderam um caminho para se livrar da sentença, quase compulsória, do desemprego (ou do subemprego temporário) e do atraso sócio-cultural: emigrar para os Estados Unidos.
O movimento foi iniciado em meados da década passada, quando o ex-prefeito Waldomiro Maia (cassado por improbidade administrativa em 1991) decidiu começar nova vida no Exterior.
Muito conhecido na cidade, funcionou como propagandista de uma alternativa que as gerações anteriores da comunidade jamais imaginou. O pioneiro trabalha em um hotel de Massachusetts e para muitos na cidade nem pensa mais em voltar. O núcleo de Maia foi se expandindo ao longo da década passada e hoje engloba muito outros sobrenomes.
Não há uma estimativa oficial de quantos moradores da cidade vivem atualmente na América do Norte. Pelas ruas, alguns arriscam 200, outros chegam a 500. O certo é que em duas comunidades de brasileiros no Nordeste dos Estados Unidos, uma em Raynham, Estado de Massachusetts e outra em Newark, Estado de New Jersey, não é difícil encontrar alguém que conhece muito bem Ortigueira.
É só procurar na cozinha ou na copa dos restaurantes, em empresas de jardinagem ou de faxina, pelas praças, onde é comum se ver babás embalando bebês com cantigas em português, e nos canteiros de obras, onde as mãos calejadas pelo campo tiram de letra a tarefa de erguer grandes casas de madeira ou edifícios à base de aço e vidro.
Lá estão homens e mulheres que queriam mais dinheiro do que podia oferecer os sustentáculos da economia local: o ramo da cerâmica e as fazendas de pecuária.
Segundo o corretor de imóveis José Jesus Machado, o repatriamento de doláres já está movimentando as transações imobiliárias da cidade.
O investimento mais comum dos ''americanos'' é comprar sítios de pecuária (há alguns poucos casos de compras de terras cultivadas com soja) entre 20 e 40 alqueires. O incipiente setor de construção civil foi revigorado com sobrados residenciais e com imóveis comerciais térreos no centro.
As duas agências bancárias de Ortigueira também estão se beneficiando. A Folha apurou que somente em uma delas ocorreram três depósitos de R$ 60 mil nos últimos dois meses.
A Folha tentou contato com agenciadores na cidade, mas todos se recusaram a dar entrevistas. Pelas ruas, pouca gente se sente à vontade para falar sobre emigração.
''Ninguém vai falar sobre isso. Ninguém quer deixar pista para a polícia deles ou para quem trabalha na embaixada americana. Nem quem tem parente por lá, nem quem ainda tem a esperança de 'comprar' a passagem até o México'', disse um vendedor ambulante da área central.
O temor se justifica quando se percebe que boa parte deles trabalha nos Estados Unidos de maneira clandestina, sob vistos de turistas. Outros tantos arriscam a vida tentando chegar ao Primeiro Mundo pela fervilhante fronteira México-EUA, onde os ''coyotes'' enriquecem comandando loucas escapadas do poderoso aparato do serviço norte-americano de imigração.
A saída arriscada custa cerca de R$ 20 mil. Um visto temporário ou definitivo no País da Imigração dinheiro nenhum pode comprar. Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, o governo norte-americano restringiu ainda mais a concessão dos vistos. Em Ortigueira, é comum alguém lamentar a perda dos R$ 150,00 investidos para viajar ao consulado de São Paulo e tentar passar em um funil cada vez mais estreito. Todos, ou quase todos, retornam de mãos abanando depois de passarem por uma bateria de entrevistas.


