Século XXI e as mulheres
É lamentável constatar um fato deplorável: em pleno século XXI, a mulher ainda é vista como inferior aos homens. Mesmo com o avanço e as conquistas que a maioria de nós tivemos (infelizmente não todas), ainda estamos muito longe de sermos verdadeiramente respeitadas e valorizadas unicamente por sermos mulheres.
Ainda hoje, o olhar para conosco e o que nos define mulher é masculino. Há muito medo e estranheza do olhar da mulher sobre si mesma em nosso mundo líquido, pois é este um ato novo e, portanto, gerador de muitos receios e preconceitos.
Todavia, não se pode deixar de notar que é intrigante observar mulheres qualificando Simone de Beauvoir de "ciumenta dos homens" quando "o poder do macho" nome da obra de Heleieth Saffiotti é latente, ou que concordem com alguns homens que o feminismo nos transformou em "homens de saia", vislumbrando apenas uma vertente ideológica cabível a todas nós.
É claro que, vivendo em uma democracia, podemos nos pautar em qualquer frente de pensamento. Contudo, é notório que, em muitos casos, partimos de pressupostos extremistas e dicotômicos cujo endeusamento ou demonização da mulher a partir do olhar do homem torna-se o único ponto de referência para a reflexão, quando tal ponto deveria ser o nosso próprio olhar para nós mesmas.
Os meios de comunicação mostram diariamente o quanto a construção do olhar feminino pelo masculino é fortíssimo nos dias atuais. E tão robusto que muitas acham "normal", "engraçado" ou "comum" atitudes grosseiras para com suas semelhantes ou não se percebam em circunstâncias abusivas. Exemplos não faltam. E, em sua maioria, as críticas proporcionadas baseiam-se em achismos, senso comum e preconceitos a partir de discursos prontos que culpabilizam a mulher em toda e qualquer situação vexatória a que ela é exposta.
O assunto da semana é a BBB Emily ter sido ou não agredida. A jovem, que participa de um programa de entretenimento, envolveu-se com um médico que a hostilizou e tal ação culminou na expulsão dele do reality. Por mais que haja quem repudie o que o participante fez, os debates em torno do tema tecem-se mais na probabilidade de a mesma ter ou não provocado tal constrangimento a contestar porque um homem não consegue dominar a si mesmo e respeitar sua parceira, mesmo que esteja de "cabeça quente" ou seja ela "muito difícil".
Triste apurar que ainda se parta da responsabilização da mulher em circunstâncias em que ela é a vítima, projetando hipóteses de que, talvez, ela não o seja. É um eterno jogar pedras na mulher adúltera, episódio que nos é narrado no capítulo 8 do Evangelho de João, em que Jesus é questionado sobre o que fazer com aquela pecadora. Nada nos é dito sobre o adúltero que com ela estava. Parece que, hoje, as coisas continuam semelhantes àquela época.
Esquecemos do que respondeu o Nazareno "quem não tiver pecado, que atire a primeira pedra!" e nos fixamos apenas em imputar às mulheres culpas por tantos crimes sofridos diariamente: assédio, estupro, assassinato, etc., etc., etc.
Mulheres prosseguem, em pleno século XXI, matando dez leões ao dia. Sejam como mães, filhas, esposas, profissionais, religiosas, ateias, lésbicas ou o que desejarem ser, continuam a sofrer muitos abusos.
É de suma importância refletir sobre uma educação que fuja de qualquer culpabilização da mesma e que parta da reflexão das atitudes e discursos danosos, pejorativos e desrespeitosos que ainda tipificam a mulher, ressignificando a imagem, direitos e deveres do homem e da mulher na sociedade.
A culpa de tudo o que nos norteia continua a recair sobre nós, como se ainda fôssemos Eva a tirar de Adão o direito ao Paraíso. Até quando?
Que este seja finalmente! o século da Primavera das Mulheres!
EVELYN MAYER é professora de Língua Portuguesa e especialista em Educação de Jovens e Adultos em Londrina
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