Embora a Secretaria Municipal de Saúde tenha reconhecido na última quinta-feira que Londrina enfrenta uma epidemia de dengue, alguns médicos da cidade vinham alertando sobre a questão há tempos. Um dos médicos infectologistas procurado pela Folha, que concordou em dar entrevista desde que não fosse identificado, afirmou que o quadro de dengue na cidade, há muito tempo, passou do simples surto para uma epidemia. ''Os próprios dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) confirmam isso. Segundo a OMS, se o índice de infestação do mosquito Aedes aegypti for superior a 5%, com certeza há uma epidemia. Em Londrina, a maioria das áreas urbanas ultrapassou este índice'', explicou.
O médico criticou a Secretaria Municipal de Saúde que, segundo ele, não teria aproveitado todos os recursos que dispõe para fazer uma campanha maciça. ''A Secretaria tem as estatísticas na mão. Se acompanhasse a curva ascendente de casos de dengue dos últimos anos, não teria deixado chegar ao ponto que está hoje'', disse. Para ele, o programa Saúde da Família, que entra em praticamente todas as casas de Londrina, deveria ter sido mais eficiente no controle dos focos e prevenção da doença. ''Pelo que a Prefeitura divulga, são mais de 90 equipes, com quatro a cinco pessoas cada, que conhecem a realidade de cada moradia. E o que eles fizeram do verão passado para este?'', questionou.
Segundo uma coordenadora de equipe do Saúde da Família, que pediu para não ser identificada, a Secretaria só começou a orientar os agentes comunitários que integram a equipe para que fizessem controle de possíveis focos de mosquito, em dezembro passado. ''Até então, não era prioridade da equipe'', afirmou.
Segundo o médico, a principal causa dessa epidemia é a falta de informação da população. ''Embora a dengue seja uma doença 'democrática', atingindo ricos e pobres, é basicamente causada pela desinformação porque é fácil de ser evitada'', disse. Para ele, a responsabilidade por essa situação é do poder público. ''Não se pode apenas culpar a população porque ela não limpa seus quintais. Ela precisa ser orientada a fazer isso. E, pelo que podemos notar, as medidas educativas aplicadas até agora não surtiram efeito'', disse. Por isso, para ele, apenas ''exaustão'' de informações pode conter a epidemia. ''Não basta fazer campanha no verão. É preciso fazer o ano inteiro, de forma intensa, como se o verão fosse o ano todo, porque os ovos do mosquito ficam 'adormecidos' por quase um ano e meio em ambiente seco. Basta uma chuvinha encher um pouco uma latinha esquecida no meio do mato para ele eclodir'', aponta.
O secretário Silvio Fernandes comentou que a equipe da Saúde da Família não está com a atribuição de agente da dengue. ''Com essa preocupação da epidemia, nós juntamos as atribuições do agente da dengue ao do agente comunitário de saúde. Em dezembro mudou um pouco a função dele, para ser um auxiliar nessa luta. O agente comunitário é responsável por muitas coisas. É um equívoco imaginar que o que ele faz não é importante''
Fernandes afirmou que as medidas tecnicamente adequadas foram tomadas no momento certo para evitar a epidemia. ''Qual foi a medida de dezembro que deveria ter sido tomada? Fazer o bloqueio do Novo Amparo onde teve surto. E foi feito de imediato. Passar inseticidade, vistoriar casa por casa, eliminar os focos, comprar tambores tampados. Nós não tínhamos condições de adivinhar que haveria um foco no Monte Cristo e Santa Fé e nos antecipar lá. Não tenho essas condições''.

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