'Second Life' em Brasília
Em uma época em que a palavra de ordem é controle dos gastos, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB/RJ), dá evidências de como a classe política brasileira, de maneira geral, vive divorciada dos desejos e necessidades da população. Qual outra explicação para a aprovação, esta semana, do uso do dinheiro público para a compra de passagens aéreas de cônjuge de parlamentares? Ou para o esforço do presidente daquela Casa em levar adiante projeto de construção de um novo prédio da Câmara, com gabinetes novos e até um shopping center, com custo estimado de R$ 1 bilhão?
Leonardo Barreto, cientista político ouvido esta semana pela Agência Brasil, informou que o Legislativo brasileiro é o mais caro do mundo. Cada senador custa aos cofres públicos R$ 33 milhões e cada deputado, R$ 10,2 milhões por ano. Na Alemanha, cada parlamentar custa aos cofres públicos R$ 3,4 milhões anuais e na França, R$ 2,8 milhões por ano.
Os congressistas brasileiros têm acesso a jornais e internet como fonte de informações. Não há como ignorar que a população está pagando muito mais pela energia elétrica, pelo combustível, passagens de ônibus e alimentos. Só nesta semana, em que os dois projetos de Cunha ganharam repercussão, as notícias negativas sobre a economia brasileira não pararam de pipocar. Os caminhoneiros iniciaram uma greve em que as consequências afetam o bolso do cidadão. Ontem mesmo, o governo federal publicou no Diário Oficial da União uma medida provisória que eleva as alíquotas da contribuição previdenciária das empresas sobre as receitas brutas. Ou seja, a medida reduz a desoneração da folha de pagamentos, um projeto que foi iniciado em 2011 para ajudar as empresas a manterem postos de trabalho.
E por falar em postos de trabalho, a taxa de desemprego saltou de 4,3% em dezembro de 2014 para 5,3% em janeiro. No Paraná há categorias de servidores estaduais em greve para tentar manter benefícios já conquistados, mas ameaçados diante da crise que afeta municípios e estados. A paralisação dos professores chega hoje ao vigésimo dia, prejudicando crianças e adolescentes. Está mais difícil conseguir financiamento para as mensalidades das universidades, assim como para a compra da casa própria. Situações que não sensibilizam grande parte dos congressistas, que parece viver em um tipo de "Second Life", aquele jogo virtual em que os participantes criam seu avatar e um mundo imaginário.





