Dilema de FHC é que agora não basta negociar só com o Congresso. A sociedade terá papel
decisivo no jogo
As recentes crises políticas têm forçado o presidente Fernando Henrique a antecipar a escolha de seu candidato para 2002. O plano de vôo inicial, traçado pelo próprio FHC, sinalizava que o pouso se daria em meados do próximo ano. Até lá ele administraria, simultaneamente, o País e o processo sucessório buscando encontrar um nome capaz de unir sua base de apoio.
O objetivo era repetir a coligação PSDB-PMDB-PFL. Acontece que a política é um jogo de interesses demasiadamente pesado, onde os limites da ética podem ultrapassar a linha do horizonte. Qualquer um, a qualquer momento, pode apunhalar como ser apunhalado. O episódio da cassação do mandado do ex-todo-poderoso ACM é um ato perfeito desta ópera bufa. FHC sabia que, a partir de meados do segundo semestre, ele entraria numa zona de turbulência onde, a qualquer momento, tanto a tripulação como os passageiros, poderiam querer desembarcar em caso do menor sinal de instabilidade. O que ele não esperava era que os sintomas brotassem tão cedo.
O episódio da violação do painel do Senado, somado à crise energética que deixou o País em estado de alerta – só para citar os dois fatos mais notórios – transformaram FHC numa espécie de refém de si próprio. Justamente no momento que os resultados econômicos davam um certo alento ao seu governo. A economia cresceu no ano passado a uma taxa superior a 4% e os prognósticos apontavam para este ano um número, no mínimo, semelhante.
A reboque, a oposição soube explorar dois momentos de infelicidade do presidente: o primeiro, quando declarou que foi ‘‘pego de surpresa pela crise energética’’; e o segundo, ao afirmar em entrevista que a oposição punha em risco a própria democracia, conquistada arduamente e a duras penas. Houve até quem entendesse que o presidente estaria vivendo um momento pessoal de dificuldade. Afinal, o equilíbrio e a sensatez sempre foram seus pontos fortes.
O PMDB quer uma definição em curto prazo do presidente Fernando Henrique sobre qual nome recairá sua preferência. Ora, a lógica é simples: o governador de Minas Gerais, Itamar Franco, é o candidato em ascensão neste momento, principalmente pelo fato de fazer uma oposição ferrenha ao governo tucano. No entanto, o partido é parte da base de sustentação. Daí que, para apoiar Itamar será preciso deixar o governo; mas para deixar o governo será necessário ter alguns indícios que o ungido do Planalto não será, por exemplo, o ministro José Serra.
Os peemedebistas pró-governo sabem que Serra nunca morreu de amores pelo PFL; daí, sonham com uma dobradinha que venha premiá-los com a vice-Presidência. O nome do governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, está no colete do crupiê de plantão. O PFL, por sua vez sentiu o golpe no fígado após o episódio da cassação de Antonio Carlos. ACM dominava a sigla de tal forma que sua ausência criou um vácuo impossível de ser ocupado em curto prazo. Aliás, fora do Congresso ele é capaz de provocar uma hecatombe política de proporções infinitamente maior do que quando ocupava assento na Casa. Derrotado, tornou-se um franco-atirador que busca seus interesses pessoais e, para atingi-los, é capaz de tudo. Agora o partido está enfraquecido e seu grande articulador fora da esfera de poder.
A alternativa dos pefelistas é buscar uma opção em seus quadros – o que parece muito difícil – ou apoiar um nome indicado pelo PSDB. Para agravar a situação governista, o PTB, que também compõe a base parlamentar, já declarou seu apoio ao ex-ministro Ciro Gomes, candidato do PPS e que encontrou nos trabalhistas o que mais necessitava: um espaço de quase 8 minutos diários na televisão para a campanha presidencial.
O dilema do presidente FHC é que, a partir de agora, não basta negociar apenas com o Congresso. O jogo chega na fase onde a sociedade terá um papel fundamental e, para seu infortúnio, a crise energética caiu como um raio no Planalto. As medidas adotadas para conter o apagão irão refletir diretamente nos resultados das eleições presidenciais. Aliás, na Internet circula um desabafo em tom jocoso onde o autor termina afirmando: ‘‘Mas no ano que vem eu vou votar.’’ Sem dúvida esta é uma importante peça para o intricando jogo de xadrez que começa a ser articulado.
- RENÉ RUSCHEL é economista em Curitiba
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