Seca, por si só, não gera incêndio - Walmor Macarini
Seca, por si só, não gera incêndio
Walmor Macarini
Sempre que há uma seca mais prolongada assistimos a essa tragédia das queimadas, e o noticiário afirma que elas são provocadas pela estiagem e pela ausência de chuva. Ora, seca e falta de chuva não geram fogo; o que o gera é alguma ação do homem. A época de seca é apenas mais propícia, mas nunca a causadora. Se há fogo é porque o homem o ateia ou possibilita que isto aconteça.
O homem vive sempre em desarmonia com a natureza. Prefere o trauma da terra ardendo do que a simplicidade de evitar as queimadas de seus campos e os incêndios. Então, o que falta? Falta consciência. Leis severas e punidoras são importantes e necessárias, mas serão, ainda, uma ação sobre consequências, porque o mal reside na causa. E a causa está no mau preparo do homem para coexistir com a vida.
Há que se começar com a criança. Na escola, no seio da família, na própria igreja. O adulto, este parece já não ter cura, pois carrega em si um macabro instinto incendiário e depredador. Porque não é a criança que faz a guerra e faz explodir as bombas. Da mesma forma que, se é o jovem que consome a droga, é o adulto que a produz e a comercializa; assim como se o jovem abusa da velocidade com seu carro, é o adulto que o fabrica veloz, possante e sedutor para esses experimentos.
É o adulto que, de dentro de seu automóvel ou caminhão, lança o toco de cigarro aceso à margem das rodovias, gerando incêndios. Porque é ele quem fuma. Nas cidades, quem já não viu adulto ateando fogo ao mato em terrenos baldios? Porque só o adulto carrega fósforo. Parece que capim seco exerce uma tentação sobre a cabeça incendiária das pessoas. Nas cidades, nos fins de tarde assiste-se aos velhinhos de vassoura na mão amontoando folhas secas e ateando fogo. E aquela fumacinha ardida, a noite toda, enchendo as narinas e os pulmões da vizinhança. Com todo respeito, mas velhinho que habita em residência térrea é chegado em amontoar folhas secas e fazer fogueirinha... Fim de tarde de verão, ao menos neste Norte do Paraná calorento, tem no ar o canto preguiçoso das cigarras e a fumacinha dessas mini queimadas. A fumaça se levanta, mas ao cair da noite vai retornando e se alojando nas baixadas.
Para não falar das indústrias e oficinas que queimam detritos, das pizzarias e academias de ginástica que aquecem seus fornos e caldeiras com lenha, e inclusive lenha verde, que é para fumacear mesmo! Lá dentro (no caso das academias), a busca da saúde física; lá fora esparramando doenças respiratórias. Uma incoerência.
Mas, e as grandes queimadas? Insensatez do homem. A sabedoria milenar ensina que o fogo estorrica a terra, mas os agricultores ainda queimam as coivaras, as pastagens secas e a palha da safra colhida. Há os que acreditam que, depois do fogo, brota mais viçosa a grama nova. Será isto verdade? Mas, e a agressão à terra, ao ambiente, à saúde das pessoas?
Por ora, enquanto as escolas não começarem a ensinar e a conscientizar as crianças, para evitar que sejam as incendiárias de amanhã, é preciso a criação de leis proibitivas para qualquer tipo de queimada, e ação enérgica e imperdoável sobre esses criminosos, como multas pesadas e prisão sumária, quando houver flagrante. Uma tarefa, ao que parece, para as promotorias de Justiça, hoje um poder que desponta muito atuante e sintonizado com a defesa do meio ambiente e dos direitos do cidadão.
O homem comete duplo sacrilégio ao culpar a natureza, pelas queimadas. Primeiro, o da destruição em si, pela irresponsabilidade; segundo, porque a seca não gera fogo espontâneo, a menos que o homem propicie meios, então é injusto acusar a estiagem.
Ressalvada uma já numerosa comunidade consciente, o homem sempre viveu dessintonizado com o ambiente que o cerca. Briga entre si, apenas pela ambição. Destrói os animais, as plantas, o ar, as águas, e inviabiliza a terra para o seu atributo divino que é proporcionar morada e alimento ao próprio homem. Se chove em demasia, ele amaldiçoa a chuva, mas quando ela lhe falta, clama aos céus que a envie. Se faz sol, amaldiçoa o calor, mas sabe que precisará dele para que germine a semente e se preserve a vida do planeta. Quando sol e chuva acontecem na exata medida, gerando a abundância, ele esquece de agradecer e de reverenciar.
A Terra-mãe chora em agonia quando a maltratamos, e sorri, generosa em recompensas, quando a acariciamos. O homem parece ignorar que em tudo pulsa vida e sentimento.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





