Cientista político ataca promessas de infraestrutura de vulto ou concursos públicos: "não há dinheiro"
Cientista político ataca promessas de infraestrutura de vulto ou concursos públicos: "não há dinheiro" | Foto: Gustavo Carneiro



Um país em que tanto a esquerda quanto a direita trabalham na construção de uma narrativa cujo ponto em comum é o medo de que a democracia seja assassinada caso haja a eleição do oponente. Esta forma de persuasão do eleitorado é uma particularidade das eleições deste ano a ser analisada com bastante atenção, pelo menos é o que destaca o cientista político Leonardo Barreto. "Vocês lembram da Regina Duarte quando o Lula foi eleito em 2002 e o Serra veiculou uma peça com ela em que ela dizia "eu tenho medo", lembrou o cientista político ao destacar o forte retorno deste sentimento nas eleições deste ano, trazido com muita competência especialmente pelas campanhas de Jair Bolsonaro (PSL) e dos representantes da esquerda e centro-esquerda para "demonizar" o inimigo ao representá-lo como uma candidatura anti democrática em que até a comparação com os cenários extremos do militarismo e da crise venezuelana, respectivamente.

Dentre outros fenômenos que sugere serem levados em consideração pelos eleitores está o do "voto útil", que aliado ao "voto envergonhado", pode causar um resultado surpreendente. O cientista político também destaca a migração dos votos de Lula para Haddad, que por enquanto está em cerca de 50%, bem como a composição do Congresso que ocorre já no primeiro turno como estratégia para o eleitor fazer a sua escolha no segundo. Em entrevista à FOLHA, Barreto faz um retrospecto do cenário econômico brasileiro pós-crise, analisa os resultados das pesquisas dos principais institutos e opina sobre a presença ainda mais marcante das campanhas em telejornais, bem como os embates entre jornalistas e candidatos e a reação dos eleitores.

Você traz muito bem a questão do medo e existem pessoas que acreditam que nenhum dos cenários colocados iria de fato acontecer. Você concorda?

É, chegamos a um estágio do jogo onde além de você se promover, você tem que retirar a credibilidade do seu adversário, isso significa denúncias, propaganda negativa, mas também criar cenários sombrios em caso de vitória dele. E isto tem acontecido dos dois lados e muito associado, talvez esta seja a novidade triste do nosso momento eleitoral. É um momento de risco para a própria democracia. E aí, neste aspecto, a esquerda vai alertar e colocar custos para eventuais movimentos autoritários de Jair Bolsonaro (PSL) e do outro lado também para proteger a democracia vão sempre lembrar da Venezuela como um cenário possível para o Brasil. E isso vai fazer um país cuja eleição vai ter este componente do medo muito presente, especialmente na discussão do segundo turno.

O fenômeno do voto "envergonhado" que aconteceu nos EUA deve acontecer aqui?

Existe um fenômeno já estudado pela ciência política que se chama "espiral do silêncio", que é quando você tem um candidato preferido mas o ambiente no qual você convive é hostil a este candidato. Então talvez você tenha este ambiente hostil hoje ligado às duas principais candidaturas, tanto ao Jair Bolsonaro que é um candidato bastante controverso e tem posições fortes e polêmicas sobre uma porção de coisas, quanto do lado do PT que vem de uma história de crise e de corrupção muito grande. Poderia haver aí um conjunto de eleitores envergonhados dos dois lados.

Você diz que se tudo der certo na economia em 2020 estaremos de volta ao patamar de 2014. Quais seriam as promessas que não poderão ser cumpridas de forma alguma?


Investimento em infraestrutura que exigem mais vulto e criação de empregos, concursos públicos, aumento de funcionalismo. Pode esquecer isso tudo, porque não tem dinheiro. Nas eleições presidenciais acabou que a principal proposta econômica que ganhou a mídia foi a do SPC (Serviço de Proteção ao Crédito), que tem dificuldades fortes para ser executada. Primeiro, do ponto de vista político, você pegaria um conjunto de dívidas que hoje estão com bancos privados, que muitas vezes eles não têm expectativa de receber e vão transferir estas dívidas para os bancos públicos. Quando as pessoas perceberem o custo político disso, que o Tesouro vai estar assumindo uma dívida e que este vai ser um excelente negócio para os bancos privados, isso pode gerar algum tipo de turbulência política. E o segundo ponto é que nem o Banco do Brasil e nem a Caixa Econômica têm a obrigação de fazer esta transferência de dívidas. Então, o próximo presidente teria que "rebolar" muito para conseguir fazer este tipo de engenharia que é claramente prejudicial aos interesses da sustentabilidade econômica destes dois bancos. Esta mesma proposta tem uma dificuldade muito grande de execução, embora candidato nunca goste de falar de problema, só gosta de falar de solução, mas hoje a disposição de caixa para investimento público, obras, criação de empregos, aumento de servidor isso é praticamente zero em todos os lugares do Brasil.

Por que você considera esta eleição "assassina" de analistas?

Esta é uma eleição fora da curva especialmente porque tivemos, num espaço de quatro anos, dois governos distintos e mal avaliados que geraram uma disputa de narrativas sobre de quem é a responsabilidade da crise, o que confunde bastante o eleitor e muda o sistema tradicional de escolha de voto. E o segundo fator é você ter experimentado nestes dois governos dois modelos econômicos diferentes, o da Dilma e depois um mais liberal conduzido pelo Meirelles junto com Temer, e não ter resultados conclusivos de nenhum dos dois. Um deles gerou uma crise pesadíssima só que o outro não conseguiu entregar a recuperação que prometeu. Além disso, uma mudança no ambiente institucional muito grande, nas regras também, o nível de financiamento das eleições caiu lá embaixo então isso promoveu um replanejamento, trouxe o processo eleitoral muito para a imprensa, os candidatos têm se valido muito de debates, entrevistas, sabatinas para conseguir chegar ao eleitor e, por fim, um sentimento muito grande do eleitorado de rejeição do pelo sistema político, tudo isso deixa os analistas políticos de uma maneira geral em maus lençóis.

Neste ano a rejeição do eleitor pela política brasileira tem "respingado" na credibilidade das pesquisas?

Eu acho que as pesquisas sofrem um pouco na credibilidade também primeiro porque pesquisas são limitadas, elas mostram retratos de uma coisa que está em movimento e, às vezes, estes retratos correspondem ao resultado. A segunda coisa é que muitas vezes estas pesquisa estão associadas a veículos de imprensa que também estão tendo a sua credibilidade ou a sua isenção questionada e aí os institutos acabam pagando um pouco isso também. E terceiro é que as pessoas têm a tendência de olhar para o instituto fazendo análise de torcedor, colocando ali seus próprios desejos. Mas de uma maneira geral, os institutos têm um bom papel para a maior parte das pessoas.

Por que os eleitores mais de direita dizem que a imprensa é de esquerda e os de esquerda dizem que a imprensa é de direita?

Eu acho que a imprensa se assusta muito em 2013 quando uma parte dos protestos se volta contra ela. Aquela história de ter que fazer cobertura de cima de prédio, tirar identificação do repórter é algo que marca muito forte a imprensa. Então eu acho que a partir daquele momento ela decide fazer um processo de alinhamento com o público e isso significa adotar uma postura mais agressiva em relação aos políticos, do ponto de vista de confronto mesmo. E aí se você soma isso a enxurrada de denúncias que houve, um exercício de comunicação muito bem sucedido do Ministério Público de criar uma narrativa anti política e esta disposição da mídia de se posicionar um pouco de acordo com seu leitor, seu consumidor, isso cria um ambiente muito antagonista em relação aos políticos e isso tem gerado uma reação. Só que quando a imprensa critica muito um lado ou muito outro, aí entra naquele clima de torcedor. Mas de um maneira geral, os veículos têm as suas preferências editoriais até por influência das redes sociais, mas eles ainda vão tentar segurar um pouco esta questão da neutralidade. Acho que está todo mundo tentando se posicionar.

Por que nenhum candidato, exceto o de extrema esquerda, fala da parcela da dívida ativa que é composta dos juros cobrados pelas instituições financeiras?

Porque ele não tem expectativas de vitória. Porque, na verdade, quando você vai falar com esta turma, embora você tenha realmente um gasto importante de juros com correntistas e bancos, são eles que pagam a conta do País. Não podemos deixar de lembrar que você só paga muito juros porque você se endivida muito e aí qualquer discurso que fale sobre redução de pagamento de juros para bancos sem falar de redução de pagamento de despesa é um discurso irreal, desonesto. Então acho que como ele não tem expectativa de vitória, ele acaba tendo liberdade para falar isso com menos informação. Agora os candidatos que estão dispostos seriamente a vencer a eleição, eles não podem cometer este tipo de equívoco.

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