Se Papai-Noel soubesse...
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 30 de dezembro de 1996
Carlos da Silva 
Alfredo sentiu o que poderia ser uma espada de gelo a descer-lhe na região lombar. Laurinha parecia bufar como touro enquanto esperava do marido resposta à pergunta: Que diabo são aqueles pacotes de presente deixados no seu carro? Trate de arrumar uma história convincente porque meu manequim é outro... Al deu uma limpada na garganta, recompôs-se e respondeu acentuando as sílabas: Se não são meus e nem seus, de quem poderiam ser? Do Paulinho, aquele carona miserável que só me causa embaraço. Imagine, meu bem, se você não fosse inteligente e compreensiva. No mínimo estaria decepando alguma coisa... Ao menos Laurinha permitia que Al tentasse uma explicação. Dissimulando ligeiro tremor geral, causado pelo susto, ele apanhou o telefone sem fio e, andando de um lado a outro, começou pela reprimenda: E você tem coragem de perguntar quem fala? Com a sua sacanagem eu poderia estar esvaindo em sangue, agora, não fosse a bondade da Laurinha... O que pretendia fazer com aqueles pacotes de presente? Claro que para nós dois, aqui, não seriam. Nem você pode explicar. Pois saiba que se, em quinze minutos, você não fazê-los desaparecer, vamos antecipar uma fogueira de São João. E vai ter que comprar outros, seu malandro.
Paulinho estava perplexo com a representação de Al e entendeu logo a mensagem cifrada contida na ameaça: Al foi pego pela mulher em flagrante sobraçando presentes que não eram necessariamente para ela. Pertenciam a Renata, sua nova conquista, que fez a gentileza de esquecê-los no carro de Al. A resposta também foi em código: Dentro de quinze minutos estarei aí para retirar a titica deixada pela Renata. Mas, pô..., vê se a faz se tocar. Se não, qualquer dia não haverá saída.
Meia hora depois Paulinho já enfiava num saco maior os cinco pacotinhos semidesfeitos por Laurinha. Tomou um rápido café, comentou futilidades, tomando cuidado para não denunciar determinado comportamento após o expediente. E saiu meio apressado para fazer o que só ele e Al sabiam: interceptar a todo custo a Renata querida, que deveria estar no meio do caminho. Por isso Paulinho estacionou atrás de uma banca de jornais, na esquina mais próxima, onde se dependurou num telefone. Ele não sabia que, naquele instante, o telefone de Alfredo tocava com insistência. Laurinha parecia voar para atender. Ao ouvir voz feminina, ela gritou: Diga logo, vagabunda. A interlocutora (Renata) percebeu que todos andavam em terreno minado e respondeu: Estamos distribuindo prêmios aos que nos atenderem com cortesia. A que horas poderemos apanhar os presentes para nossa creche?
- CARLOS DA SILVA é redator da Folha de Londrina


