Morávamos todos numa bela casa no bairro da Urca no Rio de Janeiro, cidade que naqueles tempos respirava ares mais puros. A violência ainda era restrita às áreas suburbanas e vivia-se com dignidade. O momento era de conhecimento e história e ali, na antiga capital federal concentrava-se a elite cultural brasileira.
Em Ipanema surgia a Bossa Nova, pessoas alegres cantavam lindos acordes até hoje conhecidos. No Bar do Veloso, depois rebatizado de Garota de Ipanema, artistas que com o tempo ganhariam fama e notoriedade guardavam cuidadosamente suas contas em uma conhecida caixa de charutos. Nas dunas da praia, focos do movimento hippie davam os primeiros sinais de vida. Naquela região da cidade, o coração das pessoas pulsava mais forte, as rebeldes mudanças dos meios de vida que marcariam as décadas futuras faziam-se presentes em cada esquina.
Em nossa casa morava uma alegre e completa família onde a figura principal era meu bisavô, um rabugento velhinho que ocupava seu tempo perseguindo as desprotegidas empregadas das outras casas do bairro. Vovô Julius era um italiano que conhecia o mundo todo e tinha sérias convicções políticas favoráveis a instalação de um movimento anárquico em nosso País. Por mais bravo e arredio que ele tentasse parecer, sempre consegui ver naquele rosto que o tempo jamais perdoou, cheio de rugas de sabedoria, ares de bondade e carinho sem igual pela família. Na verdade, acredito que ele era mais um artista daqueles tempos românticos representando constantemente para todos nada mais do que um papel num enorme teatro.
Vovô Julius teve dois filhos que tiveram outros cinco que lhe deram onze bisnetos, aos quais nem todos ele teve oportunidade de conhecer, pois um tombo na escada de casa ceifaria sua vida aos 101 anos. A fatídica queda ocorreu logo pela manhã, após uma noite chuvosa cujo efeito imediato foi deixar o chão completamente molhado, escorregadio e traiçoeiro para alguém de idade tão avançada. Estava acordando quando ouvi um baque surdo acompanhado de um grito de dor. Percebi uma movimentação agitada no resto casa, indicando que algo não ia bem. Com a cabeça enfiada no travesseiro chorei, como que antevendo o momento final daquela figura tão importante em nossa casa e que estava partindo dali para morar definitivamente em meu arquivo de boas lembranças de momentos sublimes vivenciados.
É impressionante como a morte mexe com as cabecinhas das crianças. Todos os adultos me consolavam dizendo que o ‘‘papai do céu’’ chamara meu querido vovô para auxiliá-lo a dirigir o tão intrincado e complexo mundo que ele havia criado. Ora, e quem me levaria agora para conhecer os museus da cidade contando as histórias ali guardadas com tamanha precisão. Quem me daria a segurança de uma mão firme para atravessar as ruas do bairro que no futuro tornar-se-iam tão cheias de perigosos automóveis. Será que meu avô e meu pai também sofriam naquele momento a irreparável perda como eu? Teria o tão amado velhinho levado-os a conhecer história da humanidade da mesma forma que fazia semanalmente comigo? Essas perguntas sem respostas até hoje fervilhavam em minha mente.
De meu bisavô herdei a visão otimista pela vida, a capacidade de ver as luzes e as cores quando tudo parecia completamente escuro. Somente um homem de tamanha cultura, capaz de comunicar-se em oito idiomas detinha conhecimentos que o permitiam enxergar o mundo de forma tão bela. Uma vez, aos 80 anos, ele conseguiu iniciar um namoro com uma menina dos seus 20 e poucos anos; conta-se que meu pai foi encarregado de conversar com o avô sobre tão intrincado problema. Papai planejou a prosa e no momento em que ía iniciá-la o velho rapidamente perguntou: ‘‘O que o assusta em meu namoro?’’
Foi impressionante como ele soube surpreender meu pai e desmontar todo o estratagema em tão poucos segundos. As pessoas quando surpreendidas reagem de forma estranha e papai completamente perdido em seu script apressou-se a revelar. ‘‘Vovô ... preocupa-me o sexo! O sexo pode ser fatal...’’ Julius gargalhou alegremente e disse: ‘‘Ah! Se ela morrer, morreu!’’
- RICARDO PROCHET é administrador de empresas e escritor em Londrina

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