Se DDDeram mal - TT Catalão
Se DDDeram mal
TT Catalão
A fragilidade dos gigantes é imensa. David sacou isso ao derrubar o Golias com uma pedra certa no ponto exato. Uma empresa dinossauro leva horas para fazer com que a ordem dada pela cabeça chegue até o rabo. É a vingança do que é pequeno, ágil, descentralizado e com alto grau de autonomia individual sobre a tragédia das corporações: inchaço de serviços, congestionamento de idéias e perda de fluxo criativo.
O episódio do caos implantado no País com a mudança do sistema de discagem direta é exemplar do quanto mais crescemos mais nos distanciamos da base, da origem. O mesmo caso das grandes chefias ou políticos que se distanciam do senso comum e até do bom-senso coletivo.
O novo sistema teve 15 longos meses para ser implantado. Falou-se mais no bug do milênio em 2000 que no orelhão da esquina. Cantaram-se mais as maravilhas globalizadas das privatizações e a reação tachada como xenófoba da esquerda que na proteção natural do patrimônio principal da questão: o idiota - mero detalhe - do consumidor. Esse não estava nos planos.
Ontem, um país perplexo com 67% das ligações interurbanas interrompidas (em São Paulo só dois conseguiram em dez que tentaram) percebeu como a maçã retirada de baixo da pilha, basta para derrubar tudo. Foi um festival de explicações cretinas, uma desastrada busca de culpados e as teses mais mirabolantes para mostrar que curiosidade, mórbida, burrice nos zeros ao discar e excesso de promoção causaram o desastre.
A culpa foi do poder de sedução da Ana Paula Arósio ou daqueles pentelhinhos que ficam virando as cuecas para o consumidor (prenúncio do deboche que acabou acontecendo). Um leitor acertou: O Brasil faz 21: de cada vinte que tentam, só um consegue. É a síndrome do argentino Palermo que tentou três pênaltis sem marcar um gol.
Pouco se falou sobre avaliação errada de demanda, sobre estratégia gradual de mudança (tanto que só não houve colapso total porque algumas empresas mantiveram ligações pelo sistema antigo), sobre incompatibilidade de softwares, sobre incompetência de se lidar com novos softwares, sobre a programação correta das centrais. Enfim, S.O.S.
Claro que o sistema vai ser normalizado, mas ficará a incômoda sensação de que não estamos preparados para acidentes coletivos. Basta ver as queimadas que acontecem todo ano mas continuam causando estragos. As inundações e a seca que castigarão sempre os mesmos locais e pessoas. Os raios que caem em Bauru e apagam um país inteiro. As estradas que matam no mesmo ponto. Os ladrões que são eleitos pelo mesmo povo. O trânsito que incapacita na mesma cidade, hospitais com o mesmo tipo de infecção, escolas sob a mesma penúria.
Ridícula é a explicação póstuma de quem é pago pelo nosso imposto para evitar exatamente explicação póstuma. Enfim, S.O.S.
- TT CATALÃO é jornalista em Brasília





