No domingo que antecedeu à Sexta-feira da Paixão e morte do Senhor Jesus Cristo, o Rei dos reis entrou em Jerusalém montado num simples jumentinho, sem aparatos ou pompas, como presumiria a soberba dos poderosos. "E, quando ia chegando, vendo a cidade, chorou sobre ela, dizendo: Ah! se tu conhecesses também, ao menos neste teu dia, o que à tua paz pertence! Mas agora isto está encoberto aos teus olhos" (Lucas 19:41-42).

Mais do que como homem, era o próprio Deus que chorava sobre Jerusalém. A cidade abrigava o templo construído pelos judeus que continha a arca da aliança do Senhor Deus, orgulho deles como centro de adoração ao Deus verdadeiro, e onde frequentavam os fariseus e doutores da lei que, mais do que ninguém, se reputavam conhecedores da palavra de Deus. No entanto, se exteriormente os judeus se orgulhavam de terem posse dos sinais visíveis da sua herança como povo escolhido, faltava-lhes o verdadeiro conhecimento, em espírito e verdade, da essência de Deus, que é o próprio amor, personificado na pessoa do Senhor Jesus.

Aquele povo estava tão apegado às coisas terrenas, às formalidades, às normas e conceitos humanos que, em nome delas, muitas vezes ignoravam a maior das leis que é o amor a Deus e ao próximo. No entanto, naquele momento, o Senhor Jesus chorou, não somente sobre Jerusalém, mas também por toda a humanidade, que replica até hoje o mesmo apego ao efêmero e ao mundano, deixando de lado o amor a Deus e aos irmãos. Continuamos vazios do amor, da bondade e da humildade, e cada vez mais cheios de orgulho, soberba, vaidade e arrogância.

Como humanidade, em nome do poder, da riqueza e do fausto, muitas vezes nós ignoramos o sofrimento e o massacre de multidões e de nações. E, como pessoas, às vezes ignoramos os irmãos que sofrem pela fome, pelo frio, pela enfermidade, pela indiferença. Ignoramos os irmãos que morrem nos hospitais, os que são jogados na pobreza, os que são vítimas da violência, como consequência da falta de preciosos recursos que são desviados pela sede implacável de poder e riqueza dos corruptos. E se o próprio Senhor Jesus diz que serão benditos do Pai eterno os que derem de comer a quem tem fome, beber a quem tem sede, abrigo a quem está desamparado, conforto a quem está doente, e que isso será reputado como tendo sido feito a Ele mesmo (Mateus 25:34-40), mais do que ter ajudado ao irmão, o mérito estará em termos entendido e praticado a lei do amor, que é o próprio Deus, na vida do outro e para o outro.

Assim como há dois mil anos, quando o Senhor Jesus desejou ter ajuntado os filhos de Jerusalém, como a galinha aos seus pintainhos debaixo de suas asas de amor, e eles não quiseram (Lucas 13,34), também hoje muitas vezes ficamos surdos ao chamado de Deus que nos ama com amor sem medida. Continuamos "matando os profetas" e "apedrejando" a palavra de Deus quando humilhamos, desprezamos ou ignoramos nossos irmãos.

Assim como a cegueira espiritual encobria os olhos dos judeus para a luz que era o Senhor Jesus, também hoje nos deixamos cegar pela indiferença, pela cobiça e pela incredulidade e, cada vez mais, nos afastamos dessa verdadeira luz e, como humanidade, caminhamos a passos largos para o abismo da escuridão do erro e para o gélido frio de nossos corações.

Enquanto os braços de misericórdia do Senhor Jesus estiverem abertos haverá tempo para a conversão, pois Ele continua nos chamando dia e noite. Mas o tempo de responder urge, e é agora, antes que seja tarde demais.

CARLOS JOSÉ ESTEVAM LIOTI é administrador em Londrina

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