Acompanho a vida pública de Euclides Scalco há quatro décadas. Nossas vidas se cruzaram muitas vezes e minha admiração por ele só aumentou. Personagem de destaque na redemocratização do país, tornou-se símbolo da luta pela Reforma Sanitária Brasileira e é um dos principais artífices do SUS. Um homem que soube aliar capacidade técnica e habilidade política.

No início dos anos 1980, quando estudante de Farmácia na Universidade Estadual de Maringá, participei do movimento pela qualidade da assistência farmacêutica e da prática profissional. O então deputado federal Scalco era nossa referência em Brasília e o nosso porto seguro, posso assim definir, no Congresso Nacional. As vitórias vieram e com elas o Centro Acadêmico “Euclides Scalco”, que existe até hoje.

Um pouco antes, em 1979, foi realizado o 1º Simpósio sobre Políticas de Saúde da Câmara dos Deputados, em Brasília. Além das críticas ao sistema de saúde extremamente desigual, com pouca prevenção e muita hospitalização e segmentado entre saúde pública e assistência médica previdenciária, o evento discutiu experiências inovadoras desenvolvidas por cidades como Londrina, Campinas e Niterói.

Mas hoje eu sei que já nos anos 1950 e 1960, no Sudoeste do Paraná, mais precisamente na região de Francisco Beltrão, Scalco e líderes corajosos como o médico Dr. Walter Pecoits e o engenheiro Deni Schartz lideraram processos importantes de conquista de melhores condições de sobrevivência e de saúde para milhares de agricultores que se viram ameaçados de perder suas propriedades e suas vidas. No episódio terrível da prisão do Dr. Pecoits em Cascavel, no qual teve um dos olhos vazado pelo cano de um revólver, o Scalco e sua esposa, Dona Therezinha, foram os primeiros a sair em sua defesa. Gesto de solidariedade e de coragem.

No Governo José Richa (1983-86), Scalco continuou defendendo os interesses da população, não só na saúde mas em todos os setores pois foi Chefe da Casa Civil durante a maior parte da governo. Depois, na Constituinte, ao lado de Ulysses Guimarães e Mario Covas ou durante o Governo Fernando Henrique Cardoso, quando esteve na Casa Civil e na presidência de Itaipu, sempre agiu com lisura e honradez de gestor com verdadeiro espírito público.

Não foi Ministro da Saúde, quando poderia se o quisesse. Também não quis receber até recentemente o título de Cidadão Honorário que a Assembleia Legislativa do Paraná lhe conferiu em 1991, por iniciativa do então deputado Rafael Greca. Teve que ser convencido de que a vida política brasileira precisa de exemplos edificantes. Renovação e mudança são construídas com novas e com antigas práticas, com novas e com antigas lideranças que dignificam sempre os cargos que ocupam porque estão a serviço da sociedade, devotados ao bem comum.

Nos últimos anos dedicou-se ao trabalho voluntário à frente dos “Amigos do Hospital de Clínicas”. Trabalho voluntário e anônimo, sem alardes, aliás próprio do seu estilo de vida. Foi a seu pedido que nos envolvemos na liberação de verbas emergenciais para a Instituição, o que evitou o fechamento de leitos hospitalares.

Euclides Scalco: um homem de postura, com posições claras e que fez da sua longa trajetória no cenário paranaense e nacional um caminho sem manchas. Um gaúcho de nascimento e por isso, agora, “Cidadão Honorário do Paraná”. Se tivesse nascido em Francisco Beltrão ou em Curitiba, cidades que adotou e não em Vista Alegre, Distrito de Nova Prata, no Rio Grande do Sul, estaria recebendo, com igual justiça, o titulo de “Cidadão Benemérito” do Paraná.

Que o seu exemplo continue semeando o solo fértil do Paraná para que ao lado da produção material cresçam a solidariedade e a fraternidade, principais ingredientes da sua vida pessoal, familiar e política. Tenho muito orgulho de ser seu discípulo e colega de profissão.

Parabéns Scalco!

Michele Caputo é deputado estadual, farmacêutico e ex-secretário estadual de Saúde.

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