SAÚDE SEGURA - O risco da adversidade
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de outubro de 2014
Fábio Galão<br>Reportagem Local 
Entre profissionais de saúde, eventos adversos são os procedimentos que geram ou podem gerar resultados inesperados e/ou indesejados que afetem a segurança de pacientes, usuários e funcionários. O médico taiwanês Juang Horng Jyh, doutor em pediatria, mestre em farmacologia e especialista em medicina intensiva pediátrica e nutrologia do Hospital do Tatuapé (SP), deu uma palestra na última terça-feira em Londrina sobre o tema, e apresentou três exemplos extremos.
Ele mencionou os casos de uma mulher de 88 anos do Rio de Janeiro que morreu em um hospital porque foi colocada sopa na veia em vez de soro, de uma menina que também foi a óbito em São Paulo ao receber vaselina líquida e o "mistério do quarto 311". Todas as sextas-feiras de manhã, morria um paciente em um quarto de cuidados semi-intensivos. As razões permaneciam desconhecidas até a direção instalar uma câmera no quarto. As imagens mostraram que todas as sextas uma funcionária da limpeza desligava o ventilador artificial do paciente para ligar o aspirador de pó.
Em entrevista à FOLHA, Jyh, que também é membro do Grupo de Trabalho de Tecnovigilância da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), apontou que casos absurdos como esses são apenas "a ponta do iceberg", e enfatizou a necessidade de mecanismos para prevenir e controlar eventos adversos nos serviços de saúde brasileiros.
Qual tem sido o impacto dos eventos adversos na saúde brasileira e que medidas estão sendo tomadas para minimizá-los?
O Brasil começou a monitorar os eventos adversos de forma mais sistemática, por iniciativa da Anvisa, em 2002, criando os hospitais sentinelas. Começou com 100 hospitais, entre os quais o Hospital Municipal do Tatuapé, onde trabalho. De lá para cá, isso tem sido aprimorado e com uma participação de cada vez mais hospitais. Tanto que hoje a Rede Sentinela é composta por cerca de 250 hospitais no Brasil todo. Com relação a eventos adversos, os Estados Unidos publicaram no final da década de 1990 que os eventos adversos seriam responsáveis por cerca de 100 mil óbitos anuais naquele País. No Brasil, nós temos uma população bastante grande, milhares de hospitais e serviços de saúde, então eu acredito que os eventos adversos podem estar gerando ou já causaram várias mortes de pacientes dentro do nosso país também.
Existem números?
Não, nós não temos estatísticas, mas sabemos que os eventos adversos existem. Não é por erro profissional, falha profissional, tem que ficar bem claro isso. Muitas vezes é falha de processo, um procedimento errado, que não está em conformidade, que gera esses eventos adversos, conhecidos também como iatrogenia.
O senhor citou na sua palestra o caso das pacientes que morreram pela aplicação de vaselina e sopa na veia. A repercussão de casos como esses na opinião pública é muito grande. Seriam casos isolados? Qual é a realidade hoje?
Existem vários fatos. Quando é muito sério, vai para a imprensa, e o pessoal fica sabendo. Então na verdade o que aparece é a ponta do iceberg. O problema é que às vezes há eventos adversos que os próprios profissionais não chegam a perceber. Isso é muito mais grave. Agora, com relação à incisão de sopa no cateter da veia, o pessoal ter confundido uma sonda enteral com um cateter venoso, as medidas (de prevenção) são realizadas. A grande maioria dos hospitais já utiliza sonda para alimentação de uma cor diferente do cateter para incisão de medicamentos. Isso, praticamente, se você não consegue abolir, ao menos consegue minimizar essas intercorrências. Com relação à menina que recebeu a vaselina no lugar do soro, ocorreu porque as embalagens dos dois produtos eram muito semelhantes, não tinham nada que diferenciasse. Agora já se sabe que isso é proibido, tem que ter alerta. Com esse fato, foi sendo criado (um mecanismo de diferenciação) para vários outros medicamentos. Medicamentos que têm mais riscos já vêm com tarjeta vermelha, ou cada serviço já é incentivado a fazer medidas de diferenciação, para promover maior segurança na aplicação desses medicamentos. Outra coisa, o Ministério da Saúde no ano passado criou o núcleo de segurança do paciente, para incentivar todos os hospitais para que tenham esse núcleo, para evitar essas intercorrências: administração de medicamentos errados, (transfusão de) sangue (de tipo) errado, cirurgia errada, promover maior higienização de mãos, identificação correta de pacientes, administrar uma alimentação adequada para o paciente, evitar quedas de macas e camas e até as úlceras de pressão, aquelas úlceras que se desenvolvem quando o paciente fica muito tempo acamado. Então o núcleo de segurança do paciente atua para prevenir esses eventos adversos.
Como equilibrar a gestão de riscos com o orçamento em saúde, que no Brasil nós sabemos que, especialmente na saúde pública, não é suficiente?
Aí se gera uma confusão. Na verdade, se você criar esse grupo de gerenciamento de risco, você vai trazer muita economia. Porque se um paciente sofre um evento adverso, por exemplo, injetou-se um soro em que o cateter está fora da veia e ninguém viu, ou você injeta uma medicação que pode dar necrose, uma ferida, ou ampliar uma ferida no braço, alguma coisa, o que acontece? Você vai ter que dar medicações e cuidar desse braço, então vai ter um custo maior, o paciente fica mais tempo internado, os familiares do paciente ficam descontentes e podem até mover ação contra o hospital. Isso gera um custo, tem o estresse do serviço em si, aumenta o tempo de internação e o paciente pode até entrar na Justiça. Essas instituições ficam mal faladas e tem esses processos judiciais, o custo é muito maior. Então se você faz um gerenciamento de risco e sai de uma qualidade, uma segurança na aplicação do melhor cuidado com o paciente, isso gera maior conforto, maior confiança e você melhora a imagem da instituição. Na verdade, você sai ganhando com isso. O programa de gerenciamento de risco do Ministério da Saúde foi criado também para promover o uso racional de medicamentos, de tecnologia, sabendo com que objetivos você vai dar aquela medicação. Então você acaba economizando, não sobrecarregando o serviço, não fazendo um uso desmedido dos equipamentos e dos medicamentos na saúde.
É possível mensurar até quanto pode chegar a economia de recursos se o trabalho desse núcleo for bem desenvolvido?
Cada serviço pode fazer a sua mensuração, mas só para você ter uma ideia, vou dar um exemplo mais visível. Dentro de uma UTI, aquele paciente que sofreu algum efeito adverso, o risco dele morrer é no mínimo duas vezes maior do que aqueles que não sofreram efeitos adversos. Muitas vezes, antes dele morrer, você vai ter que dar muito medicamento. Você pode ter administrado uma diluição errada de um anticoagulante, aí o paciente tem sangramento, aí você tem que dar plasma, plaquetas, e dependendo do que for, se esse sangramento for muito intenso, tem que dar soro, outros medicamentos, pode abaixar a pressão, muitas complicações, vai aumentar o tempo de internação. E a gente sabe que o tempo de internação inclui hotelaria, mais medicações, o uso de equipe para cuidar, fora o estresse que a família vai passar. Então só com isso você já calcula os gastos que você vai ter no tempo de permanência. E você ainda vai estar aumentando o risco de o paciente morrer, não é só a morbidade, a doença, outras doenças que pode acarretar. Os efeitos adversos são considerados pela literatura internacional como uma doença real, muito importante e bastante custosa para os serviços de saúde, por isso ela tem que ser evitada. A própria Organização Mundial de Saúde preconiza que tem que fazer esse monitoramento, porque com esse gerenciamento de risco você aprende com o erro ou com a falha de processos, e você constrói medidas para minimizar ou evitar esses eventos no futuro. E o Brasil está dando um passo à frente ao criar a Conitec, Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias em Saúde, então começa a avaliar já os produtos usados em saúde que realmente têm fundamento, têm benefício e uma eficiência para serem usados na nossa população. Esse grupo é coordenado pela doutora Clarice (Alegre Petramale), que criou o gerenciamento de risco. Com esse projeto da Conitec, eles permitem uma inovação e uma incorporação de tecnologias em saúde com mais segurança e qualidade de assistência aos nossos pacientes.
Nos últimos meses, a situação na área de saúde mais discutida no mundo foi o ebola. Antes, houve a gripe A. Com a globalização e pessoas circulando com mais velocidade em todo o mundo, cria-se o medo de que as doenças se disseminem. Como trabalhar isso com o gerenciamento de riscos em saúde?
Essa é uma questão muito pontual, porque o pessoal de saúde que está atuando no pronto-socorro, no "front", muitas vezes não sabe o que chega. O ebola é uma síndrome causada por um vírus que gera hemorragia, que pode matar, e é uma disseminação muito imprevisível no meio de uma população. No Brasil, nós não temos esses casos, então é difícil saber se o indivíduo veio de lá (países com muitos registros da doença), a não ser que a pessoa já fale: "Olha, estou com os sintomas, e venho de um país que tem a doença", para a gente tomar as medidas. E a gente sabe que muitas vezes a doença está instalada e você faz diagnóstico depois que você atendeu o paciente. Então, o que o gerenciamento de risco faz? Ele já preconiza que o material utilizado tem que trazer segurança para o médico e o pessoal de saúde que dá essa assistência. Na palestra eu falei que no gerenciamento de risco tem que ver a qualidade do avental descartável, ou da luva, da máscara, tem que checar se a luva tem furos. Se for usada para analisar esses pacientes com ebola, e tem secreção, sangue, e esse furo permite entrar em contato com secreções, esse pessoal da saúde que está cuidando desse paciente vai ser contaminado. Por isso no gerenciamento de risco é importante já enxergar um material de qualidade para dar essa assistência de proteção. Porque se esse pessoal da saúde mexe com esse paciente contaminado com ebola, a luva está furada, e você toca nas secreções, e às vezes você não lavou sua mão direito, você já se contaminou, a gente sabe que ela é transmitida até pelo sêmen, e você pode passar para sua parceira, e assim por diante. Então, isso é muito grave. O gerenciamento de risco tem que primeiro garantir todos os processos, os procedimentos e os instrumentos de segurança que são usados nos serviços de saúde.
O senhor acha que o processamento rápido do caso de ebola suspeito em Cascavel indica que o Brasil está preparado para fazer esse gerenciamento?
O Brasil tem uma fronteira muito grande, e ela é praticamente aberta. Por exemplo, nós temos os haitianos chegando pelo Acre com uma certa facilidade. O ideal era que nós tivéssemos vigilância adequada nos portos, nos aeroportos, nas fronteiras, que fossem bem vigiadas, todo estrangeiro que chegasse a gente teria que ter dados dessa pessoa, saber da sua procedência. E a partir daí a gente já pode fazer um controle melhor. É como no caso da gripe aviária, da H1N1. Nessa época, eu estava em um congresso em Cingapura, e na hora em que a gente estava desembarcando ou então indo para o centro de convenções, onde se aglomerava um grande número de congressistas, de pessoas, já havia um equipamento que detectava a temperatura do pessoal que estava chegando. Aqueles que tinham uma temperatura maior, eles já procuravam isolar, já tiravam da fila. Então essas medidas nós ainda não temos. Já tínhamos que ter dados já declarados ou equipamentos que monitoram as pessoas que entram no nosso país. Isso garantiria mais segurança.


