Um estudo divulgado recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou um dado preocupante: quase metade da população adulta brasileira (49%) está acima do peso. O índice tem como principais causas o sedentarismo e os hábitos alimentares inadequados.
  ‘‘O problema já é de saúde pública e os governos devem intervir’’, reivindica o endocrinologista Guilherme Marquezine, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Segundo ele, o Brasil está sendo atingido pela ‘‘epidemia mundial da obesidade’’, que já acomete nações desenvolvidas há décadas. Uma saída apontada pelo médico é adotar medidas que já foram implantadas em outros países, como programas de estímulo à prática de exercícios físicos e discussão do tema com as crianças nas escolas.
  Em entrevista à FOLHA, Marquezine alerta para os perigos que o excesso de peso pode causar e ensina como alimentar-se corretamente mesmo diante da correria do dia a dia. ‘‘A palavra-chave é organização. É preciso se programar. Normalmente, as pessoas saem de casa sem saber o que vão jantar, vão dormir sem pensar no almoço do dia seguinte. Isso é um erro’’, alerta.
  O IBGE aponta que quase metade da população adulta brasileira está acima do peso. A que o senhor atribui esse panorama preocupante para a saúde pública do País?
  Esses números não são um privilégio nosso. A obesidade é uma epidemia mundial, que já vem acontecendo nos países desenvolvidos há décadas. Como estamos deixando de ser um país de terceiro mundo para ser uma nação em desenvolvimento, começamos a enfrentar também esse problema. As pessoas têm mais acesso ao dinheiro e, consequentemente, à comida. As causas estão ligadas ao estilo de vida da população, que mudou bastante. As pessoas são sedentárias, têm uma vida muito corrida e uma alimentação inadequada. Comer mal é mais fácil e mais barato do que comer bem.
  Como o governo deve intervir? Campanhas educativas e políticas públicas são o caminho adequado para evitar que o Brasil transforme-se em um país de obesos?
  Campanhas e políticas públicas são de extrema importância. Temos como exemplo medidas que estão sendo tomadas em outros países. Há locais que desenvolvem programas para estimular a prática de atividade física. Disponibilizam ciclovias para que as pessoas andem mais de bicicleta, mantêm praças e parques em condições de receber a população dia e noite e discutem o tema com as crianças nas escolas.
  Há países que aplicam uma sobretaxa no preço do refigerante, como o que acontece com o cigarro no Brasil. Cobra-se uma taxa a mais para que haja dinheiro para tratar quem fica doente por causa do fumo. A mesma regra deveria ser aplicada a determinados alimentos e bebidas.
  Outra forma de minimizar o problema é adotar uma medida que recentemente foi implantada em Nova York. Todos os estabelecimentos devem informar o valor calórico dos alimentos juntamente com o preço. Não na embalagem, mas no próprio cardápio.
  A visão do governo, no entanto, é que o Brasil é um país de desnutridos. Essa realidade está mudando e, com isso, as medidas devem ser diferentes. Tratando-se da merenda escolar, por exemplo, o governo já não deve se preocupar em garantir quantidade de comida, mas sim qualidade nutricional. É possível fazer isso sem grande diferença de preço.
  Quais doenças relacionadas à obesidade são mais comuns?
  A lista é muito grande. As mais comuns são as crônicas, como diabetes, pressão alta, colesterol e triglicérides. São doenças cardiovasculares, que estão ligadas à circulação. Estão entre as que mais matam no Brasil. É interessante frisar que você não precisa ganhar muitos quilos para desenvolver esses problemas. Isso pode acontecer com pessoas que engordam um pouco em um curto espaço de tempo. Elas podem, inclusive, continuar dentro do seu peso normal e desenvolver essas doenças.
  A pessoa também pode desenvolver problemas respiratórios. Ela começa a ter dificuldades para respirar, a não dormir bem, a roncar. A qualidade de vida cai e até o rendimento no trabalho diminui. Existem até alguns tipos de câncer associados à obesidade, como o de colo de útero. A gama de doenças relacionadas à obesidade é enorme e isso tem um custo muito elevado na saúde pública quando se tem quase metade da população adulta acima do peso.
  Qual a importância de discutir o assunto nas escolas e começar a conscientização desde cedo?
  É fundamental. Hoje existem escolas particulares que já dispensam mais atenção ao problema. Há crianças de 6 anos que chamam a atenção dos pais quando têm uma má alimentação. Elas são muito mais conscientes. A ideia é fazer as pessoas pensarem no que estão fazendo e evitar que comam pela praticidade. Isso é perigoso.
  Mas é possível alimentar-se corretamente diante da correria do dia a dia?
  Não existe uma resposta única para essa pergunta. O que pode funcionar para uma pessoa pode não ser bom para outra. Cada indivíduo tem que criar suas próprias soluções. A palavra-chave é organização. É preciso se programar. Normalmente, as pessoas saem de casa sem saber o que vão jantar, vão dormir sem pensar no almoço do dia seguinte. Isso é um erro.
  E qual é o cardápio ideal para manter a saúde e não engordar?
  O ideal é incluir na dieta grãos integrais, como trigo, cevada, centeio, arroz, ervilha, lentilha, entre outros. Verduras e legumes devem ser consumidos em abundância. Em pelo menos uma refeição do dia a pessoa deve comer um bom prato de salada. As frutas não são liberadas. Elas são boas e naturais, mas são ricas em açúcar. Recomenda-se comer entre duas e três frutas por dia. A necessidade por carne é cada vez menor, por isso três vezes por semana é o suficiente. Além disso, é importante restringir o consumo de gorduras saturadas e incluir na dieta óleos, como o azeite e o de castanha, mas em quantidade pequena. A necessidade de consumo de farinha branca, sal e açúcar é menor e o uso deve ser restrito.

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