Meu amigo, o embaixador José Osvaldo de Meira Penna, disse-me que por uma questão de saúde mental não tem lido jornais nem ligado a TV. Prefere coligir seus escritos sobre filosofia para editar mais um obra a ser adicionada à sua vasta produção.
De fato, diante do palco do absurdo desse mundo, com especial destaque para a política brasileira do momento, às vezes sou tentada, para preservar minha sanidade física e mental, a me recolher a um mosteiro no Tibet. Só não faço isso porque creio que lá eles não aceitam mulheres, tenho minhas obrigações aqui mesmo no mundo profano e não cheguei ainda ao ponto de renunciar aos meus pequenos confortos. E assim, longe da paz da meditação, opto por escrever sobre a insensatez e a hipocrisia circundantes.
Nas minhas observações reparo como as multidões se deixam facilmente enganar e, portanto, conduzir. E como se conduz as massas? Apontando sonhos, mostrando caminhos, prometendo desforra, oferecendo proteção e apelando para a vitimização. Estas considerações me passaram pela cabeça a propósito do discurso pronunciado por Antonio Carlos Magalhães, que deixou a senadoria para fugir a uma provável cassação. Afinal, de olho no voto, seus pares não perderiam a ocasião de defenestrá-lo para fazer bonito diante do povo.
Nas suas palavras de despedida, o coronel urbano, que de longa data aprendeu as artes e as manhas do poder, usou a retórica da veemência, das frases de efeito, das acusações fáceis. Sobretudo, ele se metamorfoseou de réu em vítima. Resultado, saiu aclamado e carregado nos braços do povo baiano. Saiu dizendo ‘‘vou ali e volto jᒒ. E olha que pode voltar mesmo.
Claro que os eleitores de hoje estão mais atentos. Mas pelas vastidões sertanejas desse meu Brasil, pelos territórios da pobreza e mesmo entre as classes mais elevadas, o ‘‘coronel’’, produto elaborado ao longo dos século, persiste como espécie resistente, planta tinhosa do tipo comigo-ninguém-pode que não se arranca fácil da terra fértil do imaginário popular.
Ele foi engendrado por nosso tipo de colonização através dos senhores patriarcais, manifestou-se através do Estado sempre paternalista e clientelista, salientou-se na Guarda Nacional, mostrou seu poder através do ‘‘voto de cabresto’’. Fruto histórico de uma cultura e, portanto de uma mentalidade, hoje o ‘‘coronel’’ é urbano porque o Brasil se urbanizou. Ele trocou o bico de pena pelo painel eletrônico mas continua o representante legítimo das oligarquias que comandam o espetáculo da política no País do Dá-se um Jeito.
O coronel urbano ACM, Pai do Povo Baiano que se confunde com Pai-de-Santo, encarna a mística, oferece a proteção e se coloca para a admiração popular no altar de sua ambição desmesurada, de sua inenarrável vaidade de político, da egolatria que alimenta a religião do Estado onde o poder se deifica.
Ao mesmo tempo autoritário e paternal, o que lhe valeu as alcunhas de Toninho Malvadeza e Toninho Ternura, é representante de um tipo de domínio que não se extinguirá com sua momentânea retirada do Senado. Ele faz parte da espécie de caudilho latino-americano com, é claro, as nuances e características brasileiras.
O ‘‘coronel’’ ainda está entranhado na visão de mundo latina e, porque não ter a coragem de dizer, subdesenvolvida. Assim, ACM não está morto politicamente e nem a figura do ‘‘coronel’’ desapareceu destas plagas. Ela apenas se reciclou. É, na verdade, a tecnologia de ponta da política do século XXI neste fim de linha chamado América Latina.
Prova disso foi o discurso de despedida que ACM transformou numa peça de desforra por conta da derrota sofrida para presidência do Senado, além de externar outros rancores. Saiu atirando com munição pesada para atingir o presidente da República, o presidente do Senado Jader Barbalho e os membros da Comissão de ética do Senado. Fez pose de probo, jeito de inocente, papel de vítima, pregou moral, distribuiu exortações.
Isto levou o senador Roberto Freire a comentar: ‘‘Este é o país do paradoxo; a pessoa que deveria estar sendo cassada dá conselhos e lições de moral aos outros.’’ Em outras palavras, pode-se dizer que o ex-senador procedeu como o ladrão que depois de roubar a bolsa da velhinha grita para confundir as pessoas: ‘‘Pega ladrão’’.
Dirão alguns que ele cometeu um falta de menor importância, sendo então sua punição desproporcional. Acontece, que além de envolvido na violação do painel eletrônico, o ex-senador saiu se pavoneando do seu ato. Portanto, enxovalhou uma das Casas do Congresso, minou ainda mais a confiança na instituição, deu o péssimo exemplo que vindo de cima espalha-se facilmente pelas camadas mais amplas da sociedade. A fraude se tornou dessa maneira o símbolo do poder que corrompe, mente, ludibria. Não é pouco coisa.
No dia 24 de maio, renunciara pela mesma acusação e para escapar à cassação, o senador José Roberto Arruda (sem partido-DF). Antes negara sua participação na falcatrua. Depois a admitiu. No seu discurso de despedida, lágrimas e a promessa de escrever um livro sobre a famosa lista onde aparecem os nomes dos senadores que votaram contra a cassação do então senador Luiz Estevão, envolvido com o famoso juiz Lalau.
Quem quisesse ver a famosa lista, bastaria ter lido no ‘‘Jornal do Brasil’’ on-line de anteontem. Dirão que a famosa lista pode ter sido forjada, que não vale legalmente etc., etc. Em todo o caso, apareceram os nomes de 18 senadores ‘‘que votaram a favor de Luiz Estevão’’. Entre esses nomes, surpreendentemente, aparecem os das senadoras Emília Fernandes (PT), Heloísa Helena (PT), Ramez Tebet, presidente do Conselho de Ética do Senado (PMDB), Roberto Requião (PMDB), José Sarney (PMDB). O próprio ACM disse que o voto apontado como sendo de Requião está errado. Requião teria votado pela cassação.
Todos esses senadores podem fazer um discurso de defesa à moda de Catão, mas serão eles tão inocentes assim ou estaremos diante de um festival de hipocrisia? De todo modo, é bom que suas excelências comecem a votar as leis necessárias ao País, governando como lhes compete ao lado dos Poderes Executivo e Judiciário. Isso sim faria um enorme bem à sa© úde mental do embaixador J. O. de Meira Penna, à minha e creio que a de todo o povo brasileiro.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
[email protected]

mockup