Em todo o Brasil, de 10% a 15% das mulheres em idade reprodutiva sofrem de endometriose, o que significa cerca de dez milhões de brasileiras. Silenciosa, muitas vezes a doença demora anos para ser diagnosticada devido a alguns sintomas serem confundidos com dores normais durante a menstruação, como as cólicas.

Londrina é centro de referência nacional no tratamento de endometriose e recebe pacientes de todo o Brasil. Fernando de Paula é ginecologista e faz parte de uma equipe especializada nessa área. Ele explica quais pontos as mulheres devem ficar atentas.

Como explicar a doença?
Endometriose é a presença do endométrio - tecido uterino liberado na menstruação - fora do útero. Pode-se encontrar o tecido no ovário, no intestino, em regiões próximas a terminações nervosas importantes da pelvis e, em casos mais raros, no pulmão, no nariz. Já houve um único caso de endometriose nos olhos.

Quais são as suas causas?
Isto não se explicou até hoje. A teoria mais aceita, mas que ''caiu por terra'' era a chamada menstruação retrógada, em que parte do endométrio voltava pela trompa. Porém, atualmente a teoria mais aceita é a que assegura que toda mulher nasce com células que são capazes de se transformar em qualquer célula do corpo humano. Por uma tendência genética estas células se transformariam em endométrio, originando a endometriose. Também pode ser reflexo da correria e estresse do dia a dia.

Quais os principais sintomas da endometriose?
O primeiro e o mais importante é a cólica menstrual. A mulher acaba se acostumando com a cólica. Boa parte das mulheres que sofrem com cólica tem endometriose. A cólica de quem tem endometriose piora ano a ano. Outro grande sintoma é a alteração do hábito intestinal no período menstrual em virtude do endométrio irritar a pélvis e o intestino. O terceiro sinal bem característico é a dor na relação sexual.

Quais as complicações para quem demora a procurar ajuda médica?
O principal problema é a infertilidade. Quanto mais agressiva e evoluída for a endometriose maior a probabilidade dela interferir na fertilidade da mulher. A doença é progressiva. Por isso, se a pessoa não procurar ajuda o intestino pode ser acometido. Além disso, os problemas clínicos se agravam e acontece uma piora na qualidade de vida.

Quais os tratamentos disponíveis?
Muita gente acredita que o tratamento da endometriose pode ser feito com remédio e isso é um absurdo. Não existe remédio para endometriose. O que existe são medicamentos para os sintomas da doença. Por exemplo, a pessoa tem muita cólica e eu dou uma cartela de pílula à ela, o fluxo menstrual vai diminuir e a cólica vai melhorar bastante. Mas a endometriose continua igual, os sintomas que melhoram. O único tratamento que existe hoje é a cirurgia.

E como acontece a cirurgia?
É por laparoscopia. É realizada por meio de furos no abdôme e uma câmera digital, colocada no interior da barriga. Com a ótica você tem uma visão perfeita da pélvis e todas as lesões típicas da endometriose são retiradas.

Existe a possibilidade de a doença voltar após o processo cirúrgico?
Uma vez retirada, a doença não pode voltar. Mas se alguns focos pequenos passarem despercebidos durante a cirurgia, eles podem crescer com o passar dos anos. Em uma cirurgia bem executada, quando todos os focos são retirados, a endometriose não volta.

Os problemas relacionados à infertilidade acabam com a cirugia?
A endometriose é uma causa de dificuldade para engravidar. Uma vez feito o diagnóstico tem que proceder a cirugia. Se for uma endometriose leve ou moderada, em que não há muito acometimento do ovário e do útero, a chance da mulher engravidar após a cirurgia é a mesma de qualquer mulher comum. Mesmo uma pessoa com uma edometriose muito grave e que tenha passado por uma cirurgia muito agressiva pode engravidar, desde que faça o tratamento adequado.

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