SAÚDE EM PERIGO 'O Cidi acabou'
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quarta-feira, 07 de março de 2007
Fábio Cavazotti<br>Reportagem Local 
Quarta-feira de cinzas. Meio-dia. Funcionários do Centro Integrado de Doenças Infecciosas (Cidi), especializado em doenças como hanseníase, aids, leishmaniose e malária, retornam ao trabalho e encontram o prédio em reforma. Diversas salas foram destelhadas e tiveram equipamentos danificados pela chuva. A gerente do Cidi, Sueli Galhardi, reclama e é demitida. Segundo ela, a reforma foi a gota d'água de um processo de extinção do Cidi e do Centro de Referência ao Adolescente de Londrina (Cral), entidade que funcionava em prédio cedido pelo Estado na região central.
Como a senhora avalia as últimas mudanças no Cidi?
O Cidi não existe mais, ele acabou. É um processo que vem desde o ano passado. A 17 Regional de Saúde quer o prédio de volta para instalar setores administrativos. Fico me perguntando, por que o município aceitou isso?
E o Cral, também acabou?
Gradativamente vem perdendo sua característica e está praticamente acabado. É uma pena, porque o Cral atendia 6 mil adolescentes por ano com risco de drogas, de suicídio, gravidez precoce, prevenção de DST/Aids, e outros casos. Tínhamos uma equipe com psicólogos e médicos especializados nesse tipo de atendimento, mas o Estado não repõe o pessoal que se aposentou, que foi a óbito e que se transferiu.
A secretaria alega que o atendimento ao adolescente está sendo descentralizado para os postos de saúde...
A descentralização é fantástica, desde que mantenha o centro de referência para os casos graves. A unidade básica é a porta de entrada. Então, o adolescente deve ser atendido ali, mas isso não elimina a necessidade de um centro de referência para os casos em que o posto não dá conta. Por outro lado, temos relatos de adolescentes indicando que há despreparo em algumas unidades básicas. O adolescente vai buscar camisinha e as pessoas falam que eles têm de estudar, que não têm idade para manter relações sexuais. É evidente que isso não é prevenção.
O atendimento à hanseníase também deixou de ser feito no Cidi?
Em dezembro, a secretaria simplesmente informou que a hanseníase seria desativada no dia 9 daquele mês. Falamos para os funcionários: juntem suas coisas, pois vocês vão ter que ir. Mas, em nenhum momento, isso foi discutido com os funcionários, inclusive pessoas que trabalhavam ali há 25 anos. Para os pacientes, sabemos que ficou muito pior.
E a reforma do prédio?
Foi mais ou menos assim: conhece aquela pessoa que é a última a saber? Foi o que aconteceu. Na sexta-feira perguntamos para o pessoal da empreiteira quando iriam começar a destelhar e eles disseram que após o Carnaval. Quando chega a quarta-feira, descobrimos que o Cidi ficou inundado no fim de semana, porque começaram a destelhar no sábado de Carnaval. A mobília ficou embaixo d'água. Tive relato de funcionário que precisou subir na escrivaninha, porque descia água suja, com barata. Outros disseram que foram alertados a sair dali, senão as coisas iam cair na cabeça deles. Aí, liguei para a diretora de epidemiologia e ela disse para a gente se virar.
A senhora acha que sua demissão ocorreu em retaliação à entrevista - publicada pela FOLHA -, em que reclamou da situação?
Acredito que sim, foi a gota d'água. Estava fazendo uma defesa coletiva e disse para a chefia, naquele momento, ir até o Cidi para conferir a situação. Não vieram. No dia seguinte enviei um ofício relatando os riscos e solicitando providências. E a providência foi dizer que eu não estava mais no cargo.


