Saúde em crise
Desde o anúncio do governo de trazer ao Brasil médicos do exterior sem a revalidação do diploma, por meio do programa "Mais Médicos", e de vetos ao Ato Médico (lei que regulamenta a profissão) foi instaurada uma crise entre a administração federal e os médicos. No afogadilho para "responder ao clamor popular" uma vez que entre as reivindicações feitas durante os protestos realizados no mês passado está a melhoria da saúde pública o governo lançou o programa, sem qualquer discussão com a categoria e com a sociedade.
De fato há municípios que sequer contam com um profissional. Nas regiões Norte e Nordeste, principalmente, as pessoas são obrigadas a percorrer vários quilômetros em busca de atendimento. É uma situação desumana. No entanto, também cabe ressaltar que a falta de médicos não é o único problema da saúde pública brasileira. Falta infraestrutura como um todo, de prédios para abrigar hospitais e postos de saúde, a equipamentos que auxiliem no diagnóstico e simples materiais de trabalho.
Praticamente não há exemplos entre os municípios brasileiros de sistema público que funcione bem. Pelo contrário, notícias de mortes em frente a hospitais ou de pacientes que morreram enquanto aguardavam ambulâncias e demora de anos por uma consulta com médico especialista, para realização de procedimentos ou por cirurgias são corriqueiras. Esse cenário precisa ser modificado urgentemente e requer investimentos. Quando os médicos cobram a reversão dessa situação, a reivindicação é justa.
A grosso modo também não parece correto que médicos estrangeiros simplesmente comecem a trabalhar no Brasil sem a revalidação do diploma e sem falar fluentemente a língua portuguesa. Em um período em que a humanização da saúde ganha destaque, o relacionamento médico-paciente é de suma importância até para o perfeito entendimento do caso. Portanto, a categoria tem o direito de se mobilizar para lutar pelo que julga correto. No entanto, é discutível a forma como isso vem sendo feito. Mais uma vez quem acaba pagando é a população mais carente, os usuários do Sistema Único de Saúde. São essas pessoas que têm que esperar meses ou até anos para a realização de um procedimento e, em cima da hora, têm esse compromisso cancelado. Talvez fosse o caso de rever essa forma de manifesto.





