Principal causa de morte no País, as doenças cardiovasculares estão provocando menos óbitos entre os brasileiros segundo o Ministério da Saúde. Pesquisa mostra que o número de mortes por infarto e acidentes vasculares caiu 20,5% entre 1990 a 2006.
Entre a população de 20 a 74 anos, o risco de morte por doenças cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC), caiu de 187,9 por 100 mil habitantes, em 1990, para 149,4 por 100 mil habitantes em 2006, o que representa queda de 1,4% ao ano. Na população mais jovem, de 20 a 39 anos, a queda anual registrada foi de 3,6% para mulheres e 3,3% para os homens.
Segundo o presidente da Sociedade Parananense de Cardiologia, Manoel Canesin, as doenças cardiovasculares matam 300 mil pessoas por ano no Brasil, cerca de 800 por dia. ''De todas as mortes, 30% é infarto e AVC. É uma epidemia, maior do que qualquer outro tipo de epidemia, e pouco se faz para isso'', ressalta.
Em entrevista à FOLHA, ele explica porque houve redução nos índices, critica as campanhas informativas e explica como funcionará o Projeto Salve, que deverá ser implantado em todo o Estado.
Qual o problema das campanhas?
Elas são focadas. Fazem o Dia da Morte Súbita, o Dia do Colesterol. Um dia se é a principal causa de doenças cardiovasculares? O impacto disso é muito pequeno. Isso tem que ser regular, ser curricular. Não existe nenhum projeto de educação continuada e é isso que o Brasil tem que fazer. Existem projetos em outras áreas, como o Câncer de Mama, que são de educação continuada. Isso sim são projetos maravilhosos.
Mas as campanhas de prevenção estão dando resultado ou não?
Muito pouco. O que melhorou em 20% nesses 16 anos a mortalidade por doença cardiovascular no Brasil? Basicamente, dois fatores importantes: diminuiu a pobreza e melhorou a educação. É uma relação direta entre educação e saúde. Melhorou o desenvolvimento do país, melhorou a educação e reduziu a mortalidade em termos percentuais. Em termos absolutos, a mortalidade cardiovascular continua aumentando. Se nós não agirmos agora, daqui a 20, 30 anos essa epidemia vai estar pior ainda.
E aqui não falamos em educação apenas em termos de escola, não é?
Não, em termos gerais. O SUS paga R$ 7 por uma consulta. O convênio paga melhor do que o SUS, mas para o médico sobreviver hoje precisa atender 20, 25 pacientes por dia. O que ele precisa fazer? Uma consulta de 15 minutos. Nesse tempo você não educa ninguém. Você não consegue fazer a tríade da medicina: prevenção, tratamento e educação.
A medicina é uma ciência social. Exercício da medicina em grande escala é educação. Todo médico tem que fazer educação no seu consultório ou nas suas comunidades. Se conseguirmos fazer isso no Brasil, como acontece em países de primeiro mundo, você vai mudar a medicina no país. O conceito que o Brasil tem de medicina é de que o paciente vai ao consultório e tem o diagnóstico. O modelo atual é bem diferente desse, o modelo atual é de prevenção, é evitar que o indivíduo tenha uma doença.
Do que trata o Projeto Salve?
É um projeto pioneiro, para tentar educar os professores de quarta e quinta séries (primeiro e segundo anos do ensino fundamental) para que esses professores eduquem as crianças e estas eduquem os pais. Há uma cartilha de prevenção das doenças cardiovasculares, fala também sobre obesidade, diabetes, hipertensão, tabagismo e como lidar com isso. Tem um CD que ensina a fazer compressão, ensina os sinais de derrame e os sinais de infarto. Tem um manequim inflável, o aluno treina, pode levar para casa, treinar o pai. Ensinamos também como ligar para o Samu, quando ligar. Sabemos que o Samu tem muito trote, ensinamos a criança a não dar trote.
Hoje esse sistema é extremamente aplicado em países desenvolvidos e a taxa de doença cardiovascular diminuiu drasticamente. Essa é a ideia. Se nós não começarmos a lidar dessa forma, se nós acharmos que o médico tem que simplesmente tratar, não prevenir, não educar, dificilmente vamos conseguir mudar essa realidade, vai continuar sendo um impacto muito grande.
Esse projeto começa quando?
Ele está sendo debatido com as secretarias, já começou aqui em Londrina, fizemos (treinamento) em três escolas municipais. Treinamos os professores, agora vamos treinar os alunos, esse é o projeto piloto. Mas já está sendo marcada uma reunião com os secretários de saúde e de educação do Estado.
A proposta é estadual?
A proposta é municipal e estadual. Essa proposta foi levada para o secretário de saúde do Estado, que foi muito receptivo. A ideia é que ele possa agora em janeiro tentar organizar projetos pilotos em algumas escolas estaduais para que no próximo ano ou no segundo semestre, comece a ser instituída na escola e daqui a um, dois anos isso possa estar presente em todas as escolas.
O material pode ser usado por quantas crianças?
Pode ser passado de uma criança para outra, ser usado várias vezes, tem baixo custo. Esse material com CD, um manual com fotos e informações básicas, mais uma cartilha de prevenção dos fatores de risco e um manequim hoje custa em torno de R$ 160. Alunos de faculdade de medicina podem virar instrutores e ensinar professores. É um projeto de baixo custo. Um manequim atende dois ou três alunos. Em uma sala de 40, 50 alunos, precisa de uns 20 manequins desse. O custo vai ser de R$ 3.500.
Você pode treinar essa escola e no mês seguinte esse kit vai para outra escola ou deixar na mesma, reutilizar por quatro, cinco anos, é um baixo custo. E o resultado em termos de economia será a médio prazo. O problema é a visão imediatista e educação é a médio e longo prazo. A medicina também é prevenção e por isso diminuiu a mortalidade nesses 20 anos, é o resultado do que foi feito antes.

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