SAÚDE - Síndrome pode afetar quem teve pólio
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de março de 2010
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 
Programa capacita profissionais da saúde sobre a SPP
Primeira descrição no Brasil foi realizada em 2002 pela Unifesp-EPM
Quem teve poliomielite, doença conhecida como paralisia infantil, pode enfrentar um novo problema mesmo depois de anos de superar a enfermidade. É a Síndrome Pós-Poliomielite (SPP), que provoca sintomas como fraqueza, dores, sensibilidade ao frio e até problemas respiratórios.
O grau de desconhecimento é tão grande que a doença foi incluída na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID), listagem das enfermidades reconhecidas no País, apenas em janeiro.
E a doença traz uma série de limitações ao paciente. O fisioterapeuta Abrahão Quadros foi um dos profissionais responsáveis pelo relatório para a inclusão da SPP no CID. Ele faz parte da equipe multidisciplinar que atende os portadores no ambulatório da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina (Unifesp/EPM).
O que é a Síndrome Pós-Poliomielite?
É uma desordem neurológica considerada dentro do capítulo dos efeitos tardios da poliomielite. Encontra-se na categoria das doenças do neurônio motor em virtude de os quadros clínico e histológico estarem intimamente relacionados com a disfunção dos neurônios motores inferiores (células do sistema nervoso central localizadas no tronco cerebral e medula espinhal, responsáveis pelo movimento da musculatura voluntária).
Quais os principais sintomas?
A SPP é definida como uma síndrome clínica caracterizada por nova fraqueza e/ou fatigabilidade anormal na musculatura esquelética não relacionada a outras causas em indivíduos que tiveram poliomielite aguda, muitos anos antes. Outros sinais e sintomas, como nova atrofia muscular, alteração do padrão do sono, problemas respiratórios, de deglutição e intolerância ao frio podem ocorrer.
A fadiga é considerada como um dos sintomas mais debilitantes da SPP. A fadiga pode ser muscular ou geral e frequentemente se manifesta ao mesmo tempo. A fadiga geralmente é descrita como sensação de exaustão que piora com a atividade física. As manifestações da fadiga também incluem sonolência diurna e diminuição da capacidade de concentração. O sintoma da fadiga piora com a progressão do dia. A dor é o terceiro sintoma mais comum nos pacientes de SPP.
Existe um perfil das pessoas mais susceptíveis?
Os estudos epidemiológicos mostram que a prevalência da SPP varia de 22% a 44% nos casos paralíticos e 2,5% nos casos não paralíticos de poliomielite. Os fatores de risco para o desenvolvimento da SPP identificados são a grande gravidade na poliomielite paralítica, grande recuperação após o episódio paralítico agudo, maior idade no tempo da doença aguda.
Por que a doença demorou tanto tempo para ser incluída no CID?
A SPP foi descrita pela primeira vez em 1875 pelo neurologista Francês Jean Martin Charcot. Portanto, já foi identificada há 135 anos. No Brasil a primeira descrição da SPP foi realizada em 2002 pela Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina. Apesar do reconhecimento da SPP pela comunidade científica, até 2009 ela não era contemplada na CID.
O Setor de Investigação de Doenças Neuromusculares da Unifesp/EPM, juntamente com o Centro de Prevenção e Controle de Doenças da Coordenação de Vigilância em Saúde da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo e a Associação Brasileira de Síndrome Pós-Poliomielite, elaboraram em 2004 o Documento Técnico da SPP (de autoria de Acary Oliveira, Abrahão Quadros e Mônica Conde). Com base nesse documento, foi solicitada ao Centro Brasileiro de Classificação de Doenças (CBCD) a inclusão da SPP na CID. A solicitação foi aceita pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e foi incluída na última revisão da CID 10, dentro dos tópicos das Doenças do Sistema Nervoso Central - Atrofias Sistêmicas que afetam primariamente o sistema nervoso central, com o CID G 14, que entrou em vigor a partir de janeiro de 2010.
Qual é o tratamento indicado? Os pacientes podem manter uma vida produtiva?
Indivíduos com SPP podem ser beneficiados pelo programa de tratamento multidisciplinar e individual. O tratamento por equipe interdisciplinar é benéfico para todos os pacientes com história de poliomielite. Mesmo para os que não apresentam novos sintomas é importante compreender o processo da doença, equilibrar as atividades funcionais com descanso, uso de órteses e controlar o peso quando necessário. Isto pode contribuir para a redução de desenvolvimento de problemas futuros.
O princípio adotado de orientação aos pacientes é o de ''economia de energia'', evitando os extremos de inatividade e atividade em excesso. Pacientes com SPP podem manter uma vida produtiva desde que se mantenham dentro dos padrões de segurança nas atividades físicas. Se até 48 horas após a atividade aparecer dor muscular, piora da fadiga ou cãimbra é sinal de atividade excessiva.
A intervenção medicamentosa é indicada em muitas situações clínicas da SPP de acordo com a orientação médica. No processo de reabilitação o tratamento mais indicado é o exercício realizado em piscina terapêutica sob orientação de fisioterapeuta especializado em doenças neuromusculares.
Por que ainda há dificuldade de atendimento no Paraná e em outros Estados? O que precisa ser feito pelo governo?
A SPP ainda é pouco conhecida no Brasil. Muita coisa precisa ser feita, mas desde 2002, data da primeira publicação da SPP no País, muito se tem avançado. O Ministério da Saúde implantou um amplo programa de assistência aos indivíduos com deficiência física e com doenças neuromusculares, como por exemplo a distribuição do BiPAP (aparelho para auxílio à respiração, importado) pelo SUS. Atualmente está em andamento o programa do Ministério da Saúde e da Unifesp de capacitação de profissionais da saúde sobre a SPP.
A implantação de ambulatórios específicos para o atendimento dos pacientes com história de poliomielite e SPP como o existente na Unifesp/EPM, assim como os programas da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, serão naturalmente implantados em outros Estados como resultado da divulgação da doença em nosso País.


