Imagem ilustrativa da imagem SAÚDE - Rotina de improvisos
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Dilemas éticos, falta de equipamentos e de instrumentos cirúrgicos, plantões exaustivos e conflitos diários para salvar a vida dos pacientes. A chamada "rotina de guerra" descrita pelo médico Márcio Maranhão está nas páginas do livro "Sob Pressão" publicado em 2014 e que embasou o roteiro do filme lançado dois anos depois e da série em exibição na Rede Globo.

O médico formado pela UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) em 1994 se define como "produto da saúde pública". O profissional atuou nos hospitais Souza Aguiar, Getúlio Vargas e Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, e no Hospital Estadual Adão Pereira Nunes, em Duque de Caxias. Maranhão também trabalhou como plantonista do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência). Atualmente, ele é chefe do serviço de cirurgia torácica no Hospital da Força Aérea no Galeão.

Após nove anos de atendimentos pelo SUS, a angústia de perder vidas em razão da indisponibilidade de itens na rede pública de saúde fez com que o profissional pedisse a exoneração do concurso público. Maranhão relatou o dia a dia dos corredores do hospital à jornalista Karla Monteiro, autora do livro "Sob pressão: A rotina de guerra de um médico brasileiro".

Algum fato específico o levou a pedir a exoneração do SUS ou essa decisão foi motivada por uma série de acontecimentos?
Foram inúmeros fatores. A maior angústia nossa é olhar no olho do paciente e ver o tratamento limitante que a gente pode oferecer. A gente acumula essas frustrações e vê um sofrimento muito grande na população. De maneira nenhuma me coloco como vítima do sistema, não é isso. Mas é muito triste e muito angustiante você não poder tratar direito aquele paciente que te procura. Não há condições para tratar um câncer de pulmão, por exemplo. O paciente fica abandonado na emergência pública. Essa é a cena quando há esse tipo de caso ou outra patologia que exija intervenção urgente e de maior complexidade. Essa angústia vai acumulando e vai te deixando doente, de certa forma. Eu quase perdi um paciente na mesa de cirurgia porque não tinha material adequado. Na tentativa de querer ajudar o paciente, a gente vai fazendo concessões e essas concessões são perigosas. A gente passa a perder o senso crítico quanto a isso. Eu não tinha pinça, não tinha instrumental adequado para controlar o sangramento e a partir desse momento decidi que era o meu limite. Foi uma decisão muito difícil, mas foi uma decisão que fui amadurecendo com o tempo, uma vez que eu sempre me imaginei devolvendo ao Estado aquilo que o Estado me ofereceu: minha graduação em medicina. A saúde pública é uma grande escola de formação, de produção e de conhecimento.

Como é essa rotina de guerra?
A rotina de um médico na emergência é muito pesada. Existe uma nova orientação hoje na saúde mundial de que a gente deve cuidar de quem cuida. Quando a gente fala de um cuidado mínimo, é preciso ter o mínimo de condições de trabalho. Então, falo de uma carga horária de trabalho com remuneração justa, condição de alojamento adequada, uma comida decente, uma infraestrutura na enfermaria que tenha material e instrumental com o mínimo de recursos para que a gente possa trabalhar direito e atender a população como ela merece. A rotina de emergência é sempre feita de alternativas. Se eu não tenho isso, vou usar isso. É uma angústia muito grande. Essas escolhas que a gente precisa fazer na beira do leito são muito cruéis com o doente e muito angustiantes para o profissional da saúde.

O primeiro episódio da série mostra um médico que, diante da falta de material cirúrgico, vai até o jardim, corta um pedaço de mangueira e retorna para a sala de cirurgia para conseguir drenar o tórax do paciente. Esse tipo de improviso acontece com frequência?
A gente está cada vez mais sob uma vigilância que não permite a utilização desses materiais e essa vigilância está correta. As alternativas que se apresentam às vezes na iminência de um paciente morrer na sua frente te fazem buscar alguma maneira de salvá-lo, mas isso não deve se tornar uma rotina. Eventualmente, encontrar soluções alternativas para salvar uma vida naquele momento acontece quando não deveria acontecer. No entanto, a verdade é que existem várias outras "gambiarras" na rede pública que talvez não sejam tão fáceis no entendimento. Não é correto profissionais da saúde acumularem vários plantões, um atrás do outro. Isso pode acarretar fadiga crônica e risco de tomar decisões erradas. Infelizmente, hoje a gente vive um sucateamento das universidades e dos hospitais públicos. Quando você vai ao almoxarifado de um hospital público e você não tem um antibiótico adequado para medicar um paciente, você prescreve outro antibiótico que não é o adequado e você sabe disso. Isso também é uma "gambiarra" e não está correto. Essas situações não são uma escolha do profissional, se tornam uma imposição feita por uma estrutura de saúde precária. Estive recentemente no interior do Nordeste e os acadêmicos de medicina contaram que não tinham máscara para cirurgia. Eles utilizavam lenço ou propé, que é utilizado para proteção dos pés no centro cirúrgico. A gente encontra várias histórias como essa pelo País.

As universidade hoje conseguem formar um profissional capacitado para lidar com essa realidade?
Ainda nos preocupa muito a formação do médico atual. Saúde pública não é para ser entendida como uma coisa de baixo padrão. Os hospitais escola ou hospitais universitários têm um importante papel na formação do médico. Existe todo o lado de formação que é o lado acadêmico, mas há também um lado assistencial importante e uma parte de produção de conhecimento feita por meio do compartilhamento de experiências. Infelizmente, as universidades públicas estão sucateadas. Hoje, o Hospital Universitário Pedro Ernesto, onde atuei, está com menos da metade da capacidade de funcionamento, com salários dos professores atrasados e novas turmas de medicina impedidas de se formar. Não há infraestrutura e nem limpeza adequada no hospital. Além da população sofrer, você compromete muito a formação dos novos médicos. Eles entram no mercado de trabalho sem entender direito o que vai acontecer. A aspiração do jovem médico é cuidar de gente, mas quando o profissional cai em hospitais públicos, ele começa a ver uma realidade muito cruel e muito difícil e cabe a nós mostrar a esse profissional que drenar um tórax com uma mangueira de jardim não é aceitável. A população também precisa reagir. Os médicos também precisam reagir. Há medo e pavor em fazer as denúncias, mesmo porque não há quem os proteja.

Que avaliação o senhor faz do SUS? Há uma luz no fim do túnel para a saúde pública no Brasil?
Acho que o SUS é a solução para muitos dos nossos problemas desde que a gente tenha uma atenção à saúde no Brasil que não seja tão fragmentada, com ações pontuais convocadas em razão de uma ou outra doença. A sociedade civil como um todo precisa perceber que a promoção à saúde, o combate às doenças, os programas de atenção à família e o trabalho dos agentes comunitários fazem parte dessa luz no fim do túnel. A gente precisa pensar isso e promover discussões para que sejam organizados no Brasil programas consolidados com financiamentos contínuos, independente de governos. A gente sabe que hoje um bom programa de saúde da família e um programa de promoção à saúde diminuem drasticamente o número de atendimentos na emergência. Não adianta aumentar as dimensões dos hospitais públicos se a gente não conhece a saúde da nossa população. Precisamos entender quais são as doenças que prevalecem na nossa população. Também precisamos manter programas de alta complexidade, como o programa de transplante de órgãos e o programa de prevenção à Aids. Não podemos perder isso, mas é importante que a gente tenha uma organização da atenção primária. Qual é a saúde que realmente a gente quer ter? Essa é a grande questão e que exige diversas ações conjuntas.

Depois do lançamento do livro, o senhor tem recebido mais críticas ou apoio dos profissionais da saúde? Como está a repercussão?
A maioria das críticas dos profissionais de saúde tem sido muito favoráveis. Eles entenderam que a série "Sob Pressão" e o filme têm uma necessidade dramatúrgica, mas também trazem à tona diversas questões relevantes que devem prevalecer sobre qualquer questão menor ou sobre a representatividade de cada categoria. A série mostra os profissionais com suas mazelas, vícios e erros, mas comprometidos com o doente e com aquela instituição; independente das condições de trabalho, dos salários e da fadiga que eles enfrentam, eles estão sempre ali. Ninguém pretende defender de forma cega os profissionais da saúde, mas a gente quer mostrar a realidade como ela é. Médicos, enfermeiros, técnicos, assistentes sociais, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos e outros profissionais também fazem parte da rotina do hospital. Algumas das críticas residem aí. Algumas categorias não se sentem muito bem representadas, mas a ficção precisa de elementos para que se conte uma história e para que preponderem sobre isso temas relevantes como violência urbana, epidemia da Aids, violência contra a mulher e transplante e captação de órgãos. Esses são assuntos muito mais relevantes do que qualquer crítica.

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