Defender a dignidade do exercício profissional. Este é o objetivo da Mobilização Nacional dos Pediatras. A categoria reivindica a correção dos valores pagos pelos planos de sa© úde e o aumento do piso salarial. ''Os planos cobram uma anuidade elevada do usuário e pagam um valor ridículo ao pediatra'', dispara Milton Macedo de Jesus, diretor do Departamento Científico de Defesa Profissional da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e do Departamento de Pediatria da Associação Médica de Londrina (AML).

Segundo ele, existe um rótulo equivocado de que falta pediatra no Brasil. Mas o problema, afirma Macedo, é que a baixa remuneração não atrai os profissionais para o sistema público de saúde. ''Em muitos locais as crianças são atendidas por um clínico geral, que não é preparado para atender criança'', critica.

Quais as principais dificuldades enfrentadas hoje pelos pediatras?
O que reivindicamos é uma remuneração minimamente justa e ética, que deveria seguir a tabela da Associação Médica Brasileira com a correção anual. Os planos têm um reajuste anual autorizado pela Agência Nacional de Saúde (ANS), que é repassado aos usuários, mas não para nós. Eles não negociam com a gente e praticam preços unilaterais. Existem convênios que não querem nem conversar conosco.

Por que os convênios fazem isso?
Ganância e lucro. Nós temos planos de saúde que pagam o mínimo ético. No entanto, a maioria pratica o mesmo preço desde 2003.

E o paciente, que não tem culpa de nada, acaba sendo prejudicado?
O paciente vai ser sempre atendido porque tem um plano de saúde. Ele vai pedir reembolso ao plano. A ANS está sensível diante da reclamação do pediatra. Ela entende que os usuários pagam a consulta do médico, mas as seguradoras nem sempre reembolsam o que eles gastaram.

Como a categoria pretende se mobilizar?
Se não houver negociação nós iremos, em todo o País, deixar de atender os planos de saúde. Os pediatras não querem e não vão fazer greve. Nós vamos cobrar por nossos serviços. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) determina que o atendimento da criança e do adolescente deve ser priorizado. Mas com a remuneração atual nem mesmo as vagas oferecidas nos concursos são preenchidas. É importante ressaltar que não há carência de profissionais nessa especialidade. O que está acontecendo é uma desmotivação para optar pela pediatria.

A classe se sente desvalorizada?
Sim. A gente estuda bastante por um longo período e todo mês temos cursos de atualização. O pediatra está pegando mais empregos. É uma atividade estressante. O indivíduo que vai trabalhar na Terapia Intensiva não tem férias, 13º, fundo de garantia. A gente trabalha como autônomo. O médico que trabalha para um plano de saúde não tem vínculo nenhum. Se ele precisa ficar um mês afastado por motivo de doença fica sem nenhuma renda. Muitos pediatras estão indo para as cidades pequenas porque a remuneração nesses locais é maior. A medicina é parecida com o futebol. Muita gente recebe um piso baixo e um ou outro ganha muito bem. Nossa jornada não termina quando vamos para casa. Existe orientação por telefone, precisa se deslocar para atender paciente. É uma sobrecarga muito grande.

Mas quem opta pela medicina já não sabe que vai enfrentar essas dificuldades?
Sim. A dificuldade existe e foi uma opção da pessoa. O que não existe é uma remuneração justa para essa sobrecarga.

Qual a condição do pediatra na rede pública de saúde?
Em Londrina a condição é satisfatória. Existe aparelho para examinar o doente. O que não existe é remuneração. Foi definido em 2007 no Encontro Nacional de Entidades Médicas que o mínimo ético seria R$ 7.503,00 por 20 horas semanais (com as correções o valor já chega a R$ 8.300,00).

E a baixa remuneração resulta em falta de profissionais?
Existe um rótulo não verdadeiro de que falta pediatra. O que falta é uma remuneração adequada. Isso faz com que muitos pediatras abandonem a rede pública. Por essa razão, em muitos locais as crianças são atendidas pelo clínico geral e até por outros profissionais da área da saúde que não são os mais qualificados para prestar o atendimento que a criança tem direito por lei.

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