SAÚDE - Hanseníase: Brasil só perde para a Índia
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quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
Marco Feltrin<br>Reportagem Local 
O dia 24 de janeiro é lembrado como Dia Mundial do Portador de Hanseníase, doença infecto-contagiosa que se caracteriza por graves lesões na pele. O Brasil aparece em segundo lugar na lista de países com maior incidência da doença, ficando à frente apenas da Índia.
De acordo com dados do Sistema Único de Saúde (SUS), o número de casos de hanseníase no Paraná caiu 41% em cinco anos. Em 2005, ano do último levantamento, foram registrados 1.154 casos no estado, sendo 68 em Londrina.
Para o dermatologista Maurício Mash, de Curitiba, a ocorrência de Hanseníase está diretamente ligada à condição sócio-econômica da população e, apesar dos esforços do governo, o País ainda não conseguiu atingir as metas propostas pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
Em entrevista à FOLHA, Mash fala ainda sobre o preconceito sofrido pelos portadores da doença: ''pacientes com o tipo mais grave de hanseníase apresentam lesões mutilantes, o que esteticamente não é aceito pela sociedade''.
Quais fatores levaram o Brasil a ocupar o segundo lugar no ranking de países com maior incidência de hanseníase?
A hanseníase é uma doença infecto-contagiosa, e os principais fatores que colaboram para a transmissão da doença são o baixo nível sócio-econômico da população e a promiscuidade social, ou seja, quando muitas pessoas habitam o mesmo ambiente. É uma doença de fácil contágio, mas adoece-se pouco. Outro problema é a falta de estrutura governamental para identificar precocemente as lesões.
O que o governo pode fazer para reverter este quadro?
Na verdade, já existe um programa de Hanseníase que vem sendo feito pelo Ministério da Saúde há algum tempo. Eles tinham uma meta de um certo número de casos para cada mil habitantes, mas essa meta não conseguiu ser atingida em 2005 (ano do último levantamento).
Por que?
A medicação é distribuída pela saúde pública, mas o tratamento é prolongado, dura de seis meses a um ano, e alguns pacientes que não são acompanhados periodicamente acabam perdendo o tratamento, fazendo com que continue perpetuando a infecção.
Então o governo não está fazendo a parte dele...
Os remédios são distribuídos gratuitamente pelos postos de saúde, está sendo feita a divulgação de tudo isso. Mas a hanseníase é uma doença que não depende só de medicação e diagnóstico precoce. Depende de uma série de fatores como melhora das condições de vida da população, das condições de saneamento, redução da promiscuidade social que existe. O governo está pelo menos tentando fazer a parte dele, só que apesar de todos os esforços, ainda não é suficiente para chegar aos números ideais propostos pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
Qual é a principal forma de transmissão da doença?
Normalmente, a transmissão ocorre quando existe um familiar com o bacilo de Hansen, que ele elimina através de gotículas por vias aéreas, transmitindo para as pessoas que ocupam o mesmo espaço. Quando a pessoa está em um ambiente residencial, o fato dela manter contato com este familiar por muito tempo pode causar transmissão até pela saliva.
O simples fato de conviver no mesmo espaço já propicia a infecção?
A infecção e não necessariamente o contágio. A evolução da doença vai depender da imunidade de cada pessoa. Existem quatro formas de hanseníase, e quem possui boa imunidade não desenvolve a doença.
Quais são os principais sintomas?
Lesões características como manchas na pele, que podem ser brancas ou escuras, mas principalmente alteração na sensibilidade da pele. A pessoa machuca a pele e não percebe.
O isolamento da pessoa é indicado em algum dos casos?
Isso não funciona, foi algo criado de forma errada historicamente. Mas hoje se sabe que ela acontece pela própria infecção e também está relacionada à imunidade do paciente. Aqueles que moram junto com portadores de hanseníase passam por uma avaliação dermatológica. Se não for detectada nenhuma lesão, o ideal é fazer a vacinação de BCG para estimular a imunidade das pessoas.
E por que ainda existe preconceito?
É uma doença que causou muita exclusão social no passado. A criação de leprosários e de entidades que faziam com que essas pessoas fossem excluídas da sociedade sob o risco de transmitir a doença com facilidade gerou este estigma. Além disso, pacientes com o tipo mais grave de hanseníase apresentam lesões mutilantes, o que esteticamente não é aceito. Hoje em dia, no ambulatório de hanseníase do Hospital das Clínicas de Curitiba, mesmo nas formas mais graves da doença é deixado muito claro aos pacientes que é uma doença curável. Antigamente, a imagem era de que não existia cura.


