Considerada pelos especialistas um problema de saúde pública, a anorexia nervosa ainda não recebe atenção quando o assunto é políticas públicas. São poucos os serviços públicos de referência no País.
O psicólogo Felipe Alckmin Carvalho, doutorando em Psicologia Clínica no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP) e psicólogo no Programa de Atendimento, Ensino e Pesquisa em Transtornos Alimentares na Infância e Adolescência (Protad), alerta que faltam políticas públicas voltadas para a capacitação dos profissionais de saúde, principalmente os que atuam em unidades básicas de saúde (UBS), para que possam perceber os sinais de um transtorno alimentar e encaminhar o paciente ao tratamento adequado.
A anorexia nervosa tem um risco de mortalidade em torno de 5% a 15% dos casos. Não existem estatísticas brasileiras sobre a incidência, mas numa projeção pela prevalência mundial, acredita-se que entre 600 mil e 1 milhão de pessoas tenham o transtorno no País.
Carvalho esteve em Londrina na semana retrasada, participando do 1º curso do Núcleo Evoluir (de psicoterapia, neuropsicologia e ciências do comportamento), que reuniu psicólogos e estudantes de Psicologia. Durante sua palestra, ele falou sobre tratamento clínico e ambulatorial na rede pública.

Existe uma estrutura para atendimento de pacientes com anorexia nervosa na rede pública?
O professor Táki Cordás, um psiquiatra grego que mora há muito tempo no Brasil, fundou o Ambulin (Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo), que surgiu há mais de 20 anos e atende os casos graves já diagnosticados. O paciente tem um tratamento específico para ele, feito por nutricionistas da área de transtornos alimentares, psiquiatras especializados e psicólogos clínicos.

O Ambulin atende pacientes do País todo ou apenas de São Paulo?
Teoricamente, um dos critérios para que a pessoa seja atendida no ambulatório é residir na Grande São Paulo. Existem muito poucos serviços de referência. Um em Santa Catarina, um no Rio Grande do Sul e um pessoal que trabalha com transtornos alimentares no Rio de Janeiro. São muito poucos os lugares que tratam transtornos alimentares no Brasil. E vem gente até de outros países, como Bolívia, Colômbia, Venezuela. Tem uma fila de espera muito grande.

Por que há tão poucos serviços de referência no tratamento da anorexia nervosa?
Não sei responder isso. Não sei por que as políticas públicas estão investindo tão pouco nisso.

Faltaria o entendimento do transtorno como um problema de saúde pública?
Não. Todos os artigos publicados em revistas científicas começam assim: "A anorexia nervosa é reconhecidamente um problema de saúde pública".

Os profissionais da rede básica de saúde estão preparados para identificar os casos de transtornos alimentares?
Vou circunscrever essa resposta a São Paulo e ao interior de Minas Gerais, que são o que eu conheço. Em Minas, não há profissionais especialistas nesta área de transtornos alimentares. O que frequentemente acontece é que esses pacientes entram pela UBS ou Caps (Centro de Atenção Psicossocial), e daí existe a indicação para os hospitais terciários, onde há especialistas.

Mas os profissionais na UBS estão preparados para identificar os sintomas e encaminhar para um serviço especializado?
Eu acho que não e é por isso que gosto de falar sobre isso. Os profissionais recém-formados ou que estão se formando precisam saber que um menino pode ter transtorno alimentar, que uma mulher acima de 50 anos pode ter o transtorno. O que acontece muito frequentemente é que diagnosticar é muito difícil. Uma pessoa emagrecida, uma pessoa apática pode estar deprimida e não anoréxica, pode ter hipertireoidismo e não anorexia, pode sofrer de ansiedade, ela pode ter um montão de outras coisas. Fazer o diagnóstico parece simples, só preencher um checklist, mas não é. Tem muitas comorbidades associadas. Eu acho, na minha experiência, que em São Paulo e no interior de Minas essas pessoas estão pouco preparadas. Isso não é só a questão da dificuldade de diagnosticar a anorexia, mas sim de questões de políticas públicas e preparação dos funcionários. Um psicólogo trabalha 40 horas por semana numa unidade básica de saúde. Sobra muito pouco tempo para ele se especializar. Falta muita coisa, entre elas, tempo e dinheiro para esses profissionais se especializarem.

Existem estatísticas da incidência da anorexia nervosa entre adultos? Estão aumentando os casos entre pessoas com mais de 50 anos?
Existem estatísticas e dados internacionais. De prevalência nacional não tem. O que temos é rastreamento de sinais e sintomas. Pegando a prevalência de estudos internacionais, a anorexia nervosa está em 0,3% a 0,6% da população mundial. Aparentemente é uma prevalência pequena, mas ela aumenta em adolescentes e mulheres dos grandes centros urbanos. Adotando como parâmetro essa taxa, podemos dizer que no Brasil temos de 600 mil a 1 milhão de pessoas com anorexia nervosa. E veja o tamanho do problema, com 1 milhão de pessoas temos pouquíssimos lugares de referência na rede pública. No Brasil, existe um ambulatório, que é onde eu trabalho, para tratamento de transtornos alimentares de crianças e adolescentes, é o único que trata exclusivamente essa população e uma enfermaria no País inteiro. O termo anorexia nervosa sugere que é um problema de adolescentes do sexo feminino, mas isso não se sustenta nas últimas décadas. Há crianças com transtornos alimentares e meninos. Os meninos são subdiagnosticados e subtratados e quando a anorexia se cronifica fica muito difícil o tratamento. É bom que o pessoal que está se formando agora saiba que transtorno alimentar não é doença de menina.

Há uma predisposição genética para a anorexia nervosa ou o transtorno é desencadeado apenas por fatores psicológicos?
Ela é multifatorial. Existem variáveis da herança genética. Tem questões da história de vida da pessoa. Às vezes, coisas que nem têm exatamente a ver com alimentação. Questões de controle. É comum ouvir de pacientes com anorexia relatos de relações muito intrusivas com os pais. É frequente que eles digam: "Eu não controlo quase nada na minha vida, não controlo meus namoros e nem a minha orientação sexual, mas quem controla meu corpo sou eu". Pessoas que experimentam muita incontrolabilidade na vida têm uma tendência maior de desenvolver um transtorno alimentar. E tem as variáveis culturais, com a pressão por ser magro e a associação entre ser magro e ter sucesso e disciplina. E por outro lado, a pessoa obesa associada a questões pejorativas.
Quais os sinais de alerta que mostram que uma pessoa pode estar com anorexia nervosa?
O que se percebe é que as pessoas ficam muito preocupadas com a perda de peso. Existe o estereótipo de que a pessoa com anorexia é extremamente emagrecida, mas óbvio que a pessoa não emagrece em uma semana ou em um mês. Geralmente, é um processo mais longo. O que a gente indica para avaliar os sinais é cuidar da mudança comportamental. Isolamento afetivo, irritabilidade, mudanças de humor, recusa de comer com outras pessoas, interesse repentino por receitas, contagem de calorias. É muito frequente que os pacientes saibam mais sobre teor calórico do que os nutricionistas. O repertório comportamental começa a se restringir à alimentação. Antes havia muitos interesses e agora o que mais importa na vida dessa pessoa é o que se come, como se exercita, como emagrece. Tudo isso é sinal de um montão de coisa, não só da anorexia nervosa, então o que a gente recomenda aos pais é observar de perto os filhos e não ficar quieto quando tem uma alteração comportamental grande.

Há um aumento na procura por tratamento?
No ambulatório a proporção entre meninos e meninas está igualando. Antes havia um menino para cada dez meninas. Hoje, são quatro meninos para cada dez meninas. Temos percebido que na última década mais meninos têm procurado atendimento.

Por que essa mudança no perfil do paciente?
A gente tem hipóteses e uma delas é que transtornos alimentares têm sido mais abordados pela mídia. Hoje, as pessoas conhecem minimamente a anorexia nervosa. Há dez ou 15 anos, não se tinha a menor ideia.

As causas da anorexia nervosa em pacientes com mais de 50 anos são as mesmas percebidas em jovens adultos?
É preciso diferenciar, quando se fala de adulto acima dos 50 anos, se ele está desenvolvendo a doença pela primeira vez ou se desenvolveu na adolescência e foi oscilando durante a vida. Isso é mais frequente. Pacientes que desenvolvem com 50 anos são bem mais raros. O que vejo nestes casos que desenvolvem pela primeira vez é que já havia muitas questões, como abuso de substâncias, e há apenas uma migração do transtorno psiquiátrico.

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