São Paulo fede - Fernando Marrey Ferreira
São Paulo fede
Fernando Marrey Ferreira
Os rios Pinheiros e Tietê exalam um odor com o qual a população de São Paulo, acostumada, não se incomoda mais. O esgoto que muitas vezes corre a céu aberto é, na maioria das vezes, proveniente das indústrias que burlam a legislação e não adotam medidas para tratar o lixo que expelem. Os fiscais muitas vezes não autuam os infratores. Por sua vez, os excluídos não têm onde defecar: fazem suas necessidades no mato, nas calçadas, embaixo dos viadutos.
Neste contexto, a agonia das crianças sem-teto é vexatória. As urgências naturais somadas à modernidade, necessitam de ação governamental para concretizar a limpeza da área, para que os endinheirados respirem ar purificado. A sangria de recursos públicos para se tirar entulho dos rios é fonte de renda para gatunos espertos, que no passado apoderavam-se destas verbas, visto ser impossível se medir a quantidade de lixo retirado do fundo dos rios. O povo, ao sentir o cheiro do esgoto deve refletir!
A máfia instalou-se na Câmara Municipal de São Paulo; poucos foram punidos. O espírito corporativo salvacionista venceu as instituições encarregadas de apurar os desmandos dos bandidos. A fraqueza institucional do Ministério Público, da Polícia, a indecisão da imprensa e a falta de mobilização popular deixam a cidade fedendo e a máfia ramificando-se e revigorando-se.
A CPI da Máfia dos Fiscais, enterrada antes do tempo, e a cassação de poucos, encobrem os delitos dos grandes inatingíveis neste país onde a Justiça existe para colocar atrás das grades os excluídos e deixar os abastados tripudiando e enriquecendo, sugando as verbas governamentais. O ex-presidente da República Fernando Collor de Mello está para candidatar-se a prefeito. Máfia por máfia, lixo por lixo. Viva a imundície: Ex-ministro da justiça acusa Covas de corrupção, capa da revista IstoÉ do dia 22.
Aqui é terra de renascimento político. Para quem ganhou projeção nacional combatendo marajás, (Estado de São Paulo tem 869 marajás, conforme a Folha de S.Paulo do dia 17) vir para São Paulo é revitalizar as esperanças de ressurgir das cinzas.
O governo do Estado pretende seguir ideais de seu correligionário do Planalto e surrupiar dos servidores aposentados um direito legítimo. Enquanto isto, marajás recebendo fortunas dos cofres do Estado enfurecem os funcionários humildes, sem aumento há mais de quatro anos.
Em reportagem do Jornal do Brasil do dia 17, o governador Mário Covas afirmou que não dará aumento aos policiais e pede opções para poder pagar mais. Eis a mais óbvia: através de uma reforma administrativa acabar com os marajás do Estado. O PSDB, no poder, prefere, contudo, tirar dos pobres e pagar os gringos.
A desigualdade neste país é gritante. As diferenças de tratamento são um descalabro administrativo: cidadãos de nível superior avolumam as filas de desempregados na busca por uma vaga de lixeiro.
Tudo isto é relevante ao povo da Argentina, país integrante do Mercosul, onde uma campanha eleitoral em fase final está para decidir o futuro da Nação. O povo argentino pode ter conhecimento da imundície da maior metrópole brasileira e refletir sobre as distorções que o marketing enganador é capaz de fazer surgir e perpetuar.
Em um país onde a educação politiza proporcionalmente muito mais que no Brasil, talvez os jogos de imagem não sejam capazes de ludibriar o povo. Que os lixos paulistano e brasileiro não sirvam de exemplo ao país vizinho. Que a inconsistência de nossa legislação eleitoral acene para o debate sério e livre pois, caso contrário, nunca estaremos salvos dos mafiosos.
E você, brasileiro, aguenta esperar até a eleição do ano que vem para poder ter perspectiva de respirar ar puro? Aguenta esperar até 2002 para ter perspectiva ser tratado com um pouco mais de dignidade? A fome de seu filho não o comove? Um ex-presidente da República certo dia fez declaração de que não aguentava o cheiro do povo. E o povo, aguenta o cheiro que vem de cima? Este país é uma terra de conformados, de desmobilizados...
- FERNANDO MARREY FERREIRA é advogado e especializado em Jornalismo Internacional em São Paulo





