São coisas da televisão - Fernando José Dias da Silva
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sexta-feira, 14 de agosto de 1998
Fernando José Dias da Silva 
É a câmara de vídeo que constrói o real. A imagem é o total. A imagem é a verdade. Não existe mais democracia. O mundo vive numa teledemocracia. A multidão de palermas passivos aceita tudo o que aparece nessa pequena tela. Não adianta chutar o aparelho. Se ele resistir vai continuar falando sem dar a menor bola para sua aflição.
E é por isso que até agora não existe campanha política. Porque não há imagem na televisão. Essa história de dizer que a população está apática, que não existe mais debate, que os comícios desapareceram não passa tudo de uma bobagem. Os comícios não existem mais desde a campanha para as eleições diretas. E a apatia e a falta de debate dessa eleição é igual, é repetição do que já aconteceu anteriormente. Faz parte de um processo de disponibilização da vida pública.
Até onde isso vai ninguém sabe. Mas até hoje nunca deu certo estruturar um pensamento, criar uma estrutura de idéias onde não seja incluída a tal da generosidade. Cristã, marxista, anarquista, fascista, nazista, corintiano, palmeirense o componente flamenguista, vascaíno, todos tem nos seus credos o componente da generosidade. Só que agora a moda é ser individual, é passar por cima do sujeito que está ao lado para ganhar não se sabe o que.
E aí a política vira coisa menor. Vira de quem não tem o que fazer. É aquela história: a visão geral é que na política ninguém presta. Por isso nós vamos cumprir a nossa obrigação. Vamos votar porque não tem outro jeito e vamos tocar a vida para frente. O eleitor, a pessoa que deveria ser cidadã, não foi ensinado pela televisão que a única maneira de mudar isso, de tirar os picaretas da política, depende dele.
Na teledemocracia, a televisão faz questão de esconder a política usando como justificativa que o assunto é muito chato. O horário gratuito realmente é infernal. Mas essa é a desculpa mais esfarrapada possível. Com essas técnicas moderníssimas de comunicação é possível tornar interessante os programas do Faustão, do Gugu, da Xuxa, o Fantástico e até o Jornal Nacional. Porque não fazer isso com os políticos? Pelo menos eles são alfabetizados. Não todos, mas a maioria.
Está aí a explicação da campanha eleitoral gelada. Falta televisão. E falta a televisão porque não interessa. Assuntos como divisão de poder, distribuição de renda, o fosso social que existe entre ricos e pobres são explosivos. Mostrar um estupro na TV é muito menos perigoso do que tocar nesses temas.
Não existe nisso nenhuma armação diabólica de forças ocultas. Todos nós somos responsáveis. Segundo o diretor do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, o eleitor é pragmático, sem ideologia e apartidário. Poderia se acrescentar a isso que o eleitor também é hipócrita e mentiroso. O eleitor é hipócrita porque é um fingido e é mentiroso porque esconde a verdade quando é consultado nas pesquisas.
O eleitor diz que não gosta de baixarias nas campanhas políticas, que os candidatos precisam manter o nível e apresentar propostas consistentes no programa do horário gratuito na televisão. Tudo balela. A delícia para todo mundo é o arranca rabo. Se não fosse assim a TV Cultura e a TVE seriam campeãs de audiência e esses animadores de auditório, esse pessoal que usa como ponto de venda a miséria humana e joga com a emoção barata, estaria todo desempregado. São coisas da televisão.
- Fernando José Dias Da Silva é jornalista em São Paulo


